Lula critica Trump e defende soberania de países em entrevista exclusiva ao El País
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar as políticas externas do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação a países como Irã, Cuba e Venezuela. Lula destacou que o mundo não concede ao governo americano o direito de ameaçar nações com as quais não concorda.
“O Trump não tem o direito de acordar de manhã e achar que pode ameaçar um país. Não tem direito. Ele não foi eleito para isso. O mundo não lhe dá direito disso. A Constituição americana não garante isso. E muito menos a carta da ONU”, afirmou o presidente brasileiro.
As declarações foram feitas em entrevista ao jornal espanhol El País, publicada nesta quinta-feira (16). Lula abordou as ameaças de Trump, incluindo a declaração de que cometeria um crime de genocídio contra o Irã caso o país não aceitasse os termos dos EUA para o fim da guerra no Oriente Médio, e as intervenções em Cuba e Venezuela.
Ameaças e o risco de uma Terceira Guerra Mundial
Lula enfatizou que nenhum país possui o direito de violar a integridade territorial ou desrespeitar a soberania de outra nação. Para o presidente, falta no cenário global lideranças políticas que compreendam que o planeta não pertence a um único país, e que os maiores poderes têm uma responsabilidade maior em manter a paz mundial.
O presidente brasileiro chegou a comentar a possibilidade de uma terceira guerra mundial como consequência da política de intervenção de Trump. “Uma terceira guerra mundial será uma tragédia dez vezes mais potente do que foi a tragédia da Segunda Guerra Mundial”, alertou.
Questionado sobre a probabilidade de um conflito global, Lula respondeu: “Se continuarem achando que podem levantar de manhã e atirar contra qualquer um, ela pode acontecer”.
Críticas ao bloqueio contra Cuba
Lula também condenou o endurecimento do bloqueio energético contra Cuba, que se soma a um embargo econômico de quase sete décadas. Ele descreveu o país caribenho como “precioso” para o Brasil e questionou a falta de preocupação com a situação de outros países, como o Haiti, que não possuem regimes comunistas, mas enfrentam graves crises.
“Não tem explicação um bloqueio durante 70 anos. Ou seja, se as pessoas que não gostam de Cuba, que não gostam do regime cubano, têm uma preocupação com o povo cubano, por que essas pessoas não têm uma preocupação com Haiti? Que não tem o regime comunista, por que não tem?”, indagou.
O presidente ressaltou que Cuba necessita de oportunidades para melhorar sua situação interna, questionando como um país pode sobreviver sem acesso a alimentos, combustíveis e energia.
Posição sobre a Venezuela e taxação de exportações
A respeito da Venezuela, Lula reiterou a posição do governo brasileiro de que as eleições de julho de 2024 sejam realizadas e seus resultados acatados, para que o país vizinho retorne à paz. “O que não dá é os EUA acharem que eles podem administrar a Venezuela”, completou.
Sobre a taxação de exportações brasileiras pelos EUA, adotada entre abril e agosto de 2025, Lula relembrou sua conversa com Trump. Ele afirmou que nunca pediria para o ex-presidente concordar ideologicamente com ele, assim como ele próprio não concorda com Trump. “Dois chefes de Estado não têm que pensar ideologicamente. Eu tenho que pensar como chefe de Estado. Quais são os interesses do meu país com relação aos Estados Unidos e quais são os interesses deles com relação ao meu país?”, finalizou.
Após negociações entre Brasil e Estados Unidos em novembro de 2025, Washington retirou a tarifa de 40% sobre diversos produtos brasileiros. Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte americana derrubou tarifas impostas por Trump a dezenas de países, atendendo a pedidos de empresas estadunidenses afetadas pelas medidas.
