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Dieta Sem Carboidrato: Cientistas Revelam Adaptação Surpreendente do Fígado para Produzir Glicose e Manter Energia

Fígado se Reorganiza para Produzir Glicose em Dietas Sem Carboidratos, Revela Estudo da USP

Uma dieta prolongada rica em proteínas e totalmente isenta de carboidratos força o organismo a promover uma adaptação metabólica profunda. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) desvendaram os mecanismos moleculares que permitem ao fígado manter o fornecimento de energia, mesmo em jejum, alterando seu “comando molecular”.

A pesquisa, publicada no American Journal of Physiology-Endocrinology and Metabolism, aprofunda o entendimento sobre a gliconeogênese, processo pelo qual o corpo produz glicose a partir de outras substâncias, como aminoácidos. Esses achados, inicialmente observados em aves carnívoras, foram confirmados em mamíferos, incluindo camundongos, e oferecem pistas sobre processos similares em humanos.

O estudo detalha como o fígado passa de uma resposta hormonal aguda para um controle crônico da produção de glicose, indicando a plasticidade do metabolismo. Conforme informação divulgada pela FMRP-USP, essa descoberta pode ter implicações futuras no desenvolvimento de terapias para doenças como diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer.

Adaptação Hepática: De Glucagon a FoxO1

Inicialmente, a produção de glicose em dietas hiperproteicas é estimulada pelo glucagon, hormônio liberado na queda da glicemia. O glucagon ativa a proteína CREB, que por sua vez induz enzimas responsáveis pela gliconeogênese. No entanto, após cerca de 15 dias de dieta restritiva em carboidratos, o fígado demonstra uma **resistência à ativação do glucagon**, bloqueando essa via de sinalização.

A “troca de estratégia” ocorre com a ascensão do fator de transcrição **FoxO1**, que assume o comando da produção hepática de glicose. O FoxO1, diferente do CREB, depende da **queda dos níveis de insulina** para atuar. Animais submetidos a essa dieta apresentaram níveis mais baixos de insulina, facilitando a ação do FoxO1.

Fatores de transcrição são proteínas cruciais que regulam a expressão de genes. O FoxO1 ativa genes de enzimas que transformam aminoácidos em glicose, o que significa que ele **comanda a via gliconeogênica** de forma mais sustentada.

Corticosteroides: Um Papel Essencial na Adaptação

Outro achado relevante foi o aumento da **corticosterona**, hormônio similar ao cortisol em humanos. Esse hormônio, parte da resposta ao estresse metabólico, também estimula a produção de glicose. Experimentos onde as glândulas adrenais (produtoras de corticosterona) foram removidas em camundongos em dieta hiperproteica resultaram na perda da capacidade de manter a glicemia durante o jejum.

Isso demonstra que os **glicocorticoides são essenciais na adaptação metabólica** a dietas sem carboidratos. A remoção dessas glândulas compromete a capacidade do fígado de produzir glicose quando necessário.

Economia Energética e Implicações Futuras

Os pesquisadores levantam a hipótese de que essa mudança na estratégia de produção de glicose pode representar uma **economia energética** para o organismo. A ativação contínua da via CREB exigiria um maior gasto de ATP (molécula de energia celular), tornando o mecanismo mediado por FoxO1 mais eficiente a longo prazo, embora essa hipótese ainda seja especulativa.

Apesar do interesse em dietas ricas em proteínas, os cientistas alertam que os resultados em animais não devem ser diretamente extrapolados para humanos. Dietas totalmente isentas de carboidratos, como a utilizada no experimento, não são palatáveis para humanos e podem ter efeitos adversos em outros órgãos, como o aumento do tamanho dos rins em modelos animais.

O principal avanço do estudo reside na compreensão detalhada da **regulação molecular da gliconeogênese**. O metabolismo é dinâmico e adaptável, e a reorganização do sistema de comando do fígado para sustentar a produção de glicose a longo prazo em ausência de carboidratos é um achado significativo.

A desregulação da via metabólica da gliconeogênese está associada a doenças como o **diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer**. Compreender quem controla esse processo poderá, no futuro, auxiliar no desenvolvimento de **novos medicamentos e estratégias terapêuticas** para essas condições.

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