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Solidão Aumenta Dor Física e Impacta Mais Mulheres, Revela Estudo com Apoio da Fapesp

Isolamento social agrava a dor física, com efeitos mais intensos em mulheres, aponta estudo da Unesp com apoio da Fapesp.

A solidão, muitas vezes vista apenas como um estado emocional, pode ter consequências físicas profundas, especialmente no que diz respeito à percepção e cronificação da dor. Um estudo inovador, realizado com camundongos e apoiado pela Fapesp, revela que o isolamento social prolonga o sofrimento e dificulta a recuperação, com um impacto notavelmente maior no sexo feminino.

Os achados, publicados na revista Physiology Behavior, sugerem que a solidão deve ser considerada um fator de risco significativo em contextos de pós-operatório e tratamentos para dor. A pesquisa buscou entender como o isolamento social influencia a transição da dor aguda para a dor crônica, um fenômeno que afeta milhões de pessoas.

A descoberta é particularmente relevante para explicar a maior propensão de mulheres a desenvolverem quadros de dor crônica, ansiedade e depressão. O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), lança luz sobre mecanismos biológicos e comportamentais que diferenciam a resposta à dor entre machos e fêmeas diante do isolamento social.

Estudo em Camundongos Detalha Impacto da Solidão na Dor

A pesquisa envolveu o isolamento de camundongos adultos, machos e fêmeas, em gaiolas individuais. Um grupo controle foi mantido em companhia de outros animais do mesmo sexo. Para simular a dor, todos os animais foram submetidos a um corte na pata traseira, seguido, duas semanas depois, por uma injeção de prostaglandina para reativar a hipersensibilidade e avaliar a transição para a dor crônica.

Durante o experimento, os cientistas monitoraram a sensibilidade mecânica à dor, as expressões faciais de desconforto e comportamentos associados à ansiedade e depressão, como a diminuição da exploração de novos ambientes e a apatia. A condição da pelagem também foi observada como um indicador do estado geral de bem-estar.

Além disso, foram medidos os níveis de hormônios cruciais como ocitocina, vasopressina e corticosterona, que estão intimamente ligados ao vínculo social e à resposta à dor. Esses hormônios desempenham papéis vitais na regulação do humor, estresse e comportamento social.

Fêmeas Isoladas Apresentam Dor Crônica Persistente

Os resultados mais marcantes vieram da análise das fêmeas isoladas. “Somente as fêmeas isoladas continuaram com dor intensa 14 dias após o corte. Foi o único grupo que não se recuperou. A dor foi persistente, tornando-se crônica, antes mesmo que realizássemos a intervenção adicional para cronificação”, afirma Daniela Baptista de Souza, professora do Programa Interinstitucional de Pós-Graduação em Ciências Fisiológicas e uma das autoras do estudo.

Segundo Souza, os dados são robustos e indicam que o isolamento social atrasa significativamente a recuperação da dor, especialmente nas fêmeas. “Os resultados são tão robustos que não devem ser ignorados para a saúde humana”, ressalta a pesquisadora, reforçando a relevância dos achados para a medicina.

Em contraste, os machos isolados demonstraram maior resiliência física. Embora tenham apresentado um aumento na ansiedade em comparação com os machos não isolados, sua recuperação da dor não foi prejudicada de forma semelhante às fêmeas. Isso sugere uma diferença biológica na resposta ao estresse social e à dor.

O Papel da Ocitocina e o Suporte Social como Fator de Proteção

Um achado importante foi a diferença nos níveis de ocitocina. As fêmeas isoladas mantiveram níveis baixos desse hormônio durante todo o experimento. Já os machos isolados, mesmo com dor crônica induzida, conseguiram recuperar os níveis de ocitocina, atingindo patamares similares aos dos animais que não passaram por estresse social.

O suporte social demonstrou ser um fator protetor crucial. As camundongas não isoladas recuperaram totalmente a sensibilidade física em duas semanas e o equilíbrio emocional após o estímulo doloroso, evidenciando o poder da interação social para a cura.

“Não deixa de ser curioso que, mesmo quando a dor crônica foi induzida nas fêmeas que viviam em grupo, houve redução dos níveis de ocitocina. Isso sugere que, nelas, o sistema de dor afeta esse hormônio de maneira mais direta do que o ambiente social”, observa Baptista. Os machos agrupados, por sua vez, exibiram maior estabilidade e resiliência geral.

Sexo Biológico e Suporte Social na Percepção da Dor

Este trabalho se destaca por ser um dos primeiros a demonstrar o impacto da solidão na cronificação da dor, considerando o sexo biológico dos animais. “Apesar de a dor crônica ser mais prevalente em mulheres, historicamente a inclusão de indivíduos do sexo feminino em ensaios clínicos e pré-clínicos é muito baixa”, lamenta Baptista.

A pesquisadora acredita que esses achados ajudam a explicar a maior incidência de dor crônica, ansiedade e depressão em mulheres. Eles reforçam a necessidade de considerar o sexo biológico e o suporte social como variáveis centrais em pesquisas e tratamentos personalizados para a dor.

“O estudo mostrou que o isolamento social prejudica a recuperação das fêmeas de forma mais intensa e duradoura do que nos machos, afetando aspectos físicos, emocionais e hormonais. Esse resultado abre espaço para novas pesquisas”, conclui Baptista. A interação social e o sexo biológico são, portanto, fatores centrais na percepção e cronificação da dor, merecendo atenção especial na ciência e na prática clínica.

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