UFRJ homenageia vítimas da ditadura com diplomas póstumos
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizou na última quinta-feira (9) uma cerimônia emocionante para conceder diplomas de conclusão de graduação a 23 estudantes que foram vítimas da ditadura militar. Outros dois professores da instituição também foram lembrados. A iniciativa visa honrar a memória daqueles cujas trajetórias acadêmicas foram brutalmente interrompidas pela repressão estatal.
Entre os homenageados está Fernando Augusto da Fonseca, estudante de economia expulso da UFRJ por sua militância estudantil. Sua história, marcada pela tortura e assassinato durante o regime, foi trazida à tona por seu filho, André Luiz Araújo da Fonseca, que recebeu o diploma em nome do pai. Ele ressaltou o peso simbólico do documento, representando a realização de um sonho interrompido pelo autoritarismo.
O reitor da UFRJ, Roberto de Andrade Medronho, enfatizou que a entrega dos diplomas representa um compromisso inabalável com a memória, a verdade e a justiça. Ele destacou a importância de lembrar o passado para fortalecer a democracia no presente e garantir que tais atrocidades não se repitam. A cerimônia, conforme divulgado pela universidade, reforça a necessidade de defender os valores democráticos diariamente.
Um ato de memória e resistência contra o autoritarismo
A cerimônia na UFRJ é um marco na preservação da memória de um período sombrio da história brasileira. A universidade, que teve seus estudantes e professores na linha de frente da resistência contra a ditadura militar, agora reconhece formalmente o sacrifício daqueles que lutaram por um país mais livre e justo. O ato simboliza a reparação às famílias e a reafirmação de um compromisso com a educação e os direitos humanos.
O sonho interrompido de Fernando Augusto da Fonseca
A história de Fernando Augusto da Fonseca é emblemática do terror imposto pela ditadura. Levado para uma dependência do Exército no Recife há 53 anos, ele foi torturado por 20 dias enquanto sua família, incluindo sua esposa grávida e filho de 3 anos, era mantida em um hotel. Sua morte e a entrega de seu corpo selaram um destino trágico, mas agora, a UFRJ permite que seu sonho de graduação seja, simbolicamente, realizado.
O filho de Fernando, André Luiz Araújo da Fonseca, emocionado, declarou que o diploma significa a concretização de um objetivo que seu pai não pôde alcançar. “Essa identidade como estudante de Economia era muito forte para ele. O diploma encerra um ciclo, é como se ele estivesse atingindo aquele objetivo lá do passado. De todas as homenagens que ele já tinha recebido, essa para mim é a que tem mais peso”, afirmou André, que hoje é professor na mesma UFRJ.
O papel do movimento estudantil na luta pela democracia
O jornalista Franklin Martins, que presidiu o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFRJ em 1968, ressaltou o papel crucial do movimento estudantil e dos professores na resistência contra a repressão estatal. Ele lembrou os tempos difíceis, marcados por ataques, invasões e agressões, mas destacou a recusa em aceitar a submissão. Martins acredita que a recuperação dessa memória é fundamental para inspirar as lutas sociais atuais.
Malu Cerqueira, coordenadora-geral do DCE Mário Prata da UFRJ, destacou o duplo significado da diplomação: uma reparação às famílias dos desaparecidos e uma tomada de posição política voltada para o presente. “Essa é a memória que a gente quer que essa universidade preserve. Não a memória de torturadores, mas a dos melhores filhos do povo, dos lutadores que enfrentam esse regime autoritário”, declarou Malu.
Reconhecimento estendido a outros docentes e estudantes
Além dos 23 estudantes homenageados, a UFRJ também reconheceu Lincoln Bicalho Roque, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, e Raul Amaro Nin, pesquisador da Faculdade de Engenharia. Ambos foram vítimas do regime. Em julho de 2026, o estudante de economia Stuart Angel Jones, torturado e assassinado em 1971, já havia recebido um diploma póstumo, entregue à sua irmã, a jornalista Hildegard Angel.
A lista completa dos 23 estudantes homenageados inclui nomes como Adriano Fonseca Fernandes Filho, Ana Maria Nacinovic, Antônio de Pádua Costa, Antônio Teodoro de Castro, Antônio Sérgio de Matos, Arildo Airton Valadão, Áurea Eliza Pereira Valadão, Ciro Flávio Salazar e Oliveira, Fernando Augusto da Fonseca, Flávio Carvalho Molina, Frederico Eduardo Mayr, Guilherme Gomes Lund, Hélio Luiz Navarro, Jana Moroni Barroso, José Roberto Spigner, Kleber Lemos da Silva, Luiz Alberto Andrade de Sá e Benevides, Maria Célia Corrêa, Maria Regina Lobo Leite Figueiredo, Mário de Souza Prata, Paulo Costa Ribeiro Bastos, Solange Lourenço Gomes e Sonia Maria Lopes de Moraes. O levantamento dos nomes foi realizado pela Comissão da Memória e da Verdade da UFRJ, com base em relatórios oficiais do país, garantindo a precisão e a relevância histórica do reconhecimento.
