Miguel de Barros, sociólogo e ambientalista da Guiné Bissau, lança alerta sobre um novo modelo de colonialismo que mira as riquezas naturais e tecnológicas do Brasil e da África.
Em um evento na Universidade de Brasília (UnB), o renomado sociólogo Miguel de Barros, de 46 anos, apresentou uma análise contundente sobre as ameaças que pesam sobre comunidades tradicionais. Ele aponta o dedo para empresas de nações desenvolvidas, que estariam orquestrando um plano para controlar o acesso a recursos estratégicos, como as chamadas terras raras.
A fala ocorreu durante o 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, onde Barros detalhou como esse “novo projeto colonial” busca não apenas a exploração de minerais, mas também o monopólio do conhecimento e da tecnologia. A estratégia, segundo ele, visa garantir o domínio econômico e político global.
As declarações de Miguel de Barros, considerado uma das personalidades mais influentes da África Ocidental, ecoam um alerta urgente sobre a soberania e o futuro de nações ricas em recursos naturais. Conforme informação divulgada pelo sociólogo, o controle sobre esses bens é visto como fundamental para o poder geopolítico.
O Fascínio Global pelas Terras Raras
O sociólogo explicou que o interesse em elementos como as terras raras vai além da produção de bens de consumo. “Querem ter controle daquilo que chamam de terras raras, não só para manipulação e controle de patentes, mas para a produção de instrumentos bélicos”, ressaltou o cientista social.
Esses minerais são essenciais para a fabricação de tecnologias avançadas, desde componentes para carros elétricos e telefones celulares até armamentos de ponta. Para Barros, os responsáveis por essa busca são os mesmos que historicamente se beneficiaram da colonização, mantendo seu poder através de estratégias econômicas e políticas.
Inteligência Artificial como Ferramenta de Domínio
Além dos recursos minerais, Miguel de Barros destacou a importância crescente da inteligência artificial nesse novo cenário colonial. Ele argumenta que o foco está na substituição da força de trabalho humana por máquinas, um avanço que, segundo ele, não atende às necessidades das populações mais vulneráveis.
“É um mecanismo de apropriação do saber, do conhecimento e do patrimônio do povo negro”, afirmou. O sociólogo defende a necessidade de criar uma contracorrente que ofereça suporte tecnológico às comunidades negras, permitindo-lhes enfrentar esse cenário de forma mais equitativa.
Vulnerabilidade Africana e a Crítica à Gestão de Saúde
Durante sua participação na UnB, o sociólogo também criticou a gestão brasileira da saúde durante a pandemia de Covid-19. Ele apontou a falta de cooperação e transferência de tecnologia e medicamentos para a África, que resultou em uma vacinação significativamente mais lenta no continente.
“Até este momento, o continente africano só vacinou um quarto da sua população com duas doses de Covid”, exemplificou. Barros associa essa seletividade ao racismo e a um desenvolvimento tecnológico que prioriza os interesses de poucos em detrimento do direito à vida de muitos.
Resistência e Autonomia como Caminhos para a Emancipação
Diante desse quadro, Miguel de Barros defende que a academia e o poder público devem apoiar formas alternativas de resistência e emancipação para as populações mais vulneráveis. A valorização dos saberes das comunidades negras e tradicionais é vista como um elemento crucial para garantir o direito à vida e a construção da autonomia econômica e política.
A disputa por esses recursos e tecnologias, como a inteligência artificial e as terras raras, reflete um complexo jogo de poder global, onde o Brasil e outros países com riquezas naturais se encontram no centro das atenções de potências que buscam manter sua hegemonia.
