Segunda-feira, 27 de Julho de 2026 às 23:35
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Saúde na Floresta: Como pontos de atendimento mais próximos no Amazonas transformam vidas e evitam tragédias

Acesso à saúde no Amazonas: A luta diária contra a distância e a falta de recursos

As vastas distâncias e as dificuldades logísticas no interior do Amazonas criam barreiras significativas para o acesso à saúde. Histórias trágicas de perdas e sequelas devido à demora no atendimento médico são comuns em comunidades ribeirinhas, onde um simples deslocamento para a cidade pode levar dias.

Francisco Solivan Peres de Araújo, presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), relata a perda de sua mãe durante o parto de sua irmã, ainda na década de 80, pela impossibilidade de chegar à cidade a tempo. “Deu uma hemorragia. Na época, não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade”, compartilhou.

Essas narrativas, marcadas pela distância e pela falta de recursos financeiros para o transporte, são um reflexo da realidade enfrentada por muitos moradores da zona rural de Carauari, um município com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados, onde a locomoção entre comunidades e a sede urbana pode ser extremamente demorada, dependendo do tipo de embarcação e do nível dos rios. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, a reportagem acompanhou uma expedição que demandou cerca de 35 horas de lancha expressa de Manaus até a cidade de Carauari, e mais horas para alcançar as comunidades ribeirinhas.

O impacto da distância nas emergências de saúde

Até os anos 90, a situação era ainda mais crítica, com relatos frequentes de mortes por falta de atendimento. A instalação de um sistema de lanchas de resgate pela prefeitura trouxe um alívio, mas a demora no socorro ainda é um problema devido à imensidão territorial. Adriana da Silva e Silva sofre as consequências de uma picada de cobra em 2019, quando o atendimento demorou mais de 24 horas, resultando em quatro cirurgias para salvar sua perna e sequelas permanentes.

Raimundo Viana da Cunha, colaborador do ICMBio, também compartilha uma dor antiga. Em 1994, seu irmão adoeceu gravemente em uma comunidade ribeirinha. Sem apoio governamental ou de organizações de base, a família dependeu de um regatão, um comerciante ambulante que navega pelos rios, para tentar o transporte até a sede do município. O irmão esperou uma semana por um barco, e quando finalmente conseguiu a carona, a viagem levou mais uma semana. “O fato é que, depois de duas semanas, meu irmão foi atendido e não teve mais condição de fazer nada pela saúde dele – e ele veio a óbito”, relatou Raimundo.

A busca por soluções: O projeto ‘SUS na Floresta’

A esperança para muitas dessas comunidades reside em aproximar os serviços de saúde. O projeto “SUS na Floresta”, uma parceria entre a prefeitura de Carauari e organizações da sociedade civil, como a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), busca exatamente isso. Foram instalados dois pontos de saúde nas unidades de Bauana e Campina, com consultórios, telessaúde e atendimento odontológico, visando beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas em 56 comunidades ribeirinhas.

Essas novas estruturas permitem realizar procedimentos que antes só seriam possíveis na cidade ou com a vinda das Unidades Básicas de Saúde (UBS) fluviais, que atendem as comunidades de forma esporádica devido à logística complexa. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra, atuante na unidade de Campina, destaca que o atendimento primário mais próximo pode reduzir em até 80% as chamadas para resgate por lancha, permitindo que os pacientes recebam o atendimento inicial e sejam estabilizados antes de qualquer deslocamento para a cidade, caso necessário.

O futuro da saúde ribeirinha no Amazonas

A iniciativa “SUS na Floresta” não apenas oferece acesso à saúde, mas também fortalece a permanência das famílias em seus territórios, valorizando o extrativismo e a agricultura familiar que contribuem para a preservação da Amazônia. Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, enfatiza a importância de levar as políticas públicas para o interior, evitando o êxodo rural e seus impactos sociais.

Apesar dos avanços, desafios como o alto custo logístico e operacional, a captação de recursos e a continuidade dos projetos por gestões futuras ainda persistem. No entanto, o projeto já demonstra o potencial de otimizar recursos e garantir o direito à saúde para os cidadãos brasileiros que vivem em áreas de difícil acesso. O Ministério da Saúde também tem ampliado investimentos, com a implantação de Equipes de Saúde da Família Ribeirinha e UBS Fluviais, buscando superar barreiras geográficas e assistenciais históricas.

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