Mães ambulantes no Carnaval: a luta por apoio e segurança para os filhos em meio à folia
O carnaval no Rio de Janeiro atrai multidões e movimenta a economia, mas para muitas mães ambulantes, a festa é sinônimo de trabalho árduo em condições precárias. Elas enfrentam longas jornadas sob o sol escaldante, muitas vezes com seus filhos pequenos ao lado, pois não têm com quem deixá-los.
Sem escolas abertas e com poucas alternativas de cuidado, a presença das crianças junto aos pais se torna uma necessidade para garantir o sustento da família. O carnaval representa uma oportunidade única de faturamento, sendo considerado por muitos como um “décimo terceiro salário”, o que torna a ausência impossível.
Diante desse cenário, o movimento “Elas por Elas Providência” cobra do poder público a instalação de espaços de convivência e descanso para as crianças e para as próprias trabalhadoras, tanto durante o dia quanto à noite. A reportagem de D.A.P.E. (34), que leva sua filha de 4 anos para vender bebidas na Zona Sul, e L.C.S. (34), que cuida de três filhos e sobrinhos em sua barraca no centro, ilustram essa realidade, conforme informações divulgadas em reportagem.
A realidade de mães ambulantes no carnaval carioca
Taís Aparecida Epifânio Lopes, de 34 anos, moradora da favela do Arará, viaja diariamente com sua filha de 4 anos para vender bebidas nos blocos da Zona Sul. “Carnaval é quando a gente consegue ganhar mais dinheiro, é um evento grande, então, se eu não fizer isso, a gente não come, não bebe. E eu não posso deixá-la sozinha”, explica. A preocupação com o filho mais velho, que fica em casa na comunidade, também é grande devido aos conflitos na região.
No centro da cidade, Lílian Conceição Santos, também de 34 anos, passa o dia com seus três filhos e sobrinhos, com idades entre 2 e 14 anos, dentro de sua barraca. “O carnaval ajuda demais nas contas, não posso deixar de vir”, afirma. As crianças se distraem com celulares enquanto ela vende biscoitos, balas e bebidas. As condições são precárias, com o uso de banheiros improvisados e banhos com água de postos policiais.
O movimento “Elas por Elas Providência” destaca que o carnaval movimenta cerca de R$ 5,8 bilhões na economia do Rio e é crucial para a renda dos ambulantes. Por isso, a cobrança por melhores condições de trabalho e apoio se intensifica.
Espaços de acolhimento: um avanço com limitações
Neste carnaval, o movimento “Elas por Elas”, em articulação com o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), a 1ª Vara da Infância e da Juventude e a prefeitura, conseguiu viabilizar um espaço para deixar as crianças durante a noite, especialmente nas noites de desfiles. O local oferece atividades lúdicas, banho, refeições e descanso para crianças de 4 a 12 anos, funcionando das 18h às 6h e atendendo cerca de 20 crianças por noite.
Taís considerou o espaço um grande alívio: “Minha filha gostou, eu também entrei e achei um espaço super bacana, a minha filha, quando acordou, me contou que brincou, viu televisão, tinha cama, coisas que na rua, a gente não tem como dar”. No entanto, o movimento busca ampliar o horário para atender mães que trabalham durante o dia.
Luna Cristina Vitória, de 26 anos, também deixou seus filhos de 5 e 9 anos no centro de acolhimento. “Eles dão todo o suporte lá, as crianças jantam, tomam banho, dormem, saem umas 5h20, quando a gente já consegue pegar e levar para casa”, relata. Seu filho Eduardo Vitor Nunes Silva, de 9 anos, aprovou a iniciativa, destacando a possibilidade de desenhar e o conforto do local.
Lílian Conceição, que trabalha no Largo da Carioca, sente falta de um ponto de apoio mais próximo. “Lá na Sapucaí, é muito longe para mim. Mas se tivesse aqui, eu botava, senão, é só telefone (tela)”, lamenta. Ela reforça a necessidade de políticas públicas que reconheçam os direitos das trabalhadoras e de suas crianças.
A invisibilidade das mães ambulantes e a luta por direitos
Caroline Alves da Silva, uma das lideranças do movimento “Elas por Elas”, ressalta que as mães ambulantes são, em sua maioria, mulheres negras e mães solo, que muitas vezes dormem embaixo de marquises. “Estamos falando de direitos nossos, como trabalhadoras, e das crianças”, afirma, criticando a falta de políticas públicas e de itens básicos de proteção, como guarda-sol e chapéu.
Ela argumenta que o lucro gerado pelo carnaval deveria se reverter em benefícios para quem está na linha de frente, entregando produtos ao público. “A gente faz parte [da economia do carnaval], a gente carrega cerveja, carrega carrinho pesado debaixo do Sol, nos blocos, na Sapucaí, mas somos invisíveis”, desabafa.
O vereador Leniel Borel tem alertado nas redes sociais sobre a presença de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade durante o carnaval, cobrando ações da prefeitura e destacando os riscos de exploração e desaparecimento. A Secretaria Municipal de Assistência Social informou que realiza ações permanentes de prevenção ao trabalho infantil, mas não detalhou as medidas, apenas destacou o espaço de convivência perto da Sapucaí.
Apoio emergencial e desafios futuros
O “Elas por Elas” também garantiu que as ambulantes fossem incluídas no Centro do Catador, próximo à Sapucaí, para descanso, alimentação e banho. “Não adianta a gente deixar os filhos dentro de um espaço seguro e ir dormir embaixo de marquise”, pondera Caroline, evidenciando a necessidade de um apoio mais abrangente.
A deputada Dani Monteiro reconhece as limitações do espaço, mas vê o atendimento às ambulantes como um reconhecimento do seu papel. “Garantir água, cuidado e um espaço digno é reconhecer que direitos humanos também são renda, saúde e respeito para quem mantém a cidade de pé”, declarou.
A prefeitura não comentou as críticas sobre a falta de equipamentos de proteção e a necessidade de ampliar o horário do centro de convivência infantil. Em 2026, o credenciamento de ambulantes foi limitado a 15 mil, apesar de cerca de 50 mil terem se cadastrado, o que gera ainda mais incerteza para esses trabalhadores.
