Fórum de Dacar discute soberania e integração como pilares para a paz e segurança na África, com foco no combate ao terrorismo no Sahel.
Líderes africanos reunidos no 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África defenderam a soberania e a integração entre os países do continente como pré-requisitos essenciais para alcançar a paz, estabilidade e segurança. A necessidade de investimentos voltados para a juventude e um controle de fronteiras mais eficaz foram apontados como caminhos cruciais para superar ameaças como o terrorismo. O evento, que acontece em Dacar, capital do Senegal, contou com a participação de 38 países, incluindo 18 nações africanas e convidados de outras regiões, como o Brasil.
A sessão de abertura, realizada em 20 e 21 de maio, destacou os desafios globais enfrentados pelo continente, como as fraturas comerciais entre potências, o protecionismo econômico e as crises climáticas. O presidente do Senegal, Bassirou Diomaye Faye, enfatizou que a África, longe de estar imune, sofre os impactos dessas crises, além de lidar com conflitos armados e o avanço do terrorismo.
O tema central do encontro deste ano, “África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?”, convida a uma reflexão profunda sobre a necessidade de ações conjuntas e solidárias para transformar o continente em um espaço pacífico, integrado, soberano e próspero. Essa foi a tônica do evento, conforme divulgado pelo Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.
Soberania Africana como Chave para o Desenvolvimento
Em um discurso com forte ênfase na soberania africana, o presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, dirigiu-se a uma plateia que incluía representantes de nações europeias com histórico colonial. Ele declarou que a África não pode mais aceitar que sua agenda de segurança seja definida externamente ou que seu espaço estratégico seja ocupado sem consentimento. Faye ressaltou a importância da soberania na gestão de recursos naturais, como urânio, petróleo e gás, afirmando que esses recursos devem impulsionar a transformação estrutural do continente, em vez de apenas alimentar indústrias estrangeiras.
O Terrorismo no Sahel: Um Epicentro de Instabilidade
Bassirou Diomaye dedicou atenção especial à crescente ameaça do terrorismo que assola a região do Sahel, uma vasta faixa que conecta o deserto do Saara às savanas. Grupos ligados ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda têm expandido suas operações para países do Golfo da Guiné. O Índice de Terrorismo Global de 2026 aponta o Sahel como o epicentro mundial do terrorismo, respondendo por mais da metade das mortes globais por terrorismo em 2025. Mali, Burkina Faso e Níger, no Sahel central, registraram cerca de 4,5 mil atentados e 17 mil mortes nas últimas duas décadas, segundo o mesmo índice. Especialistas associam essa instabilidade a golpes militares recentes e à atuação de grupos insurgentes em áreas de fronteira.
A Necessidade de Respostas Multidimensionais e Integração Regional
O presidente senegalês defende que o combate ao terrorismo exige uma resposta multidimensional, que vá além da soberania interna e inclua o controle efetivo das fronteiras. Ele exemplificou que um problema de segurança no Mali afeta diretamente o Senegal, tornando ineficazes respostas puramente endógenas. A estratégia proposta envolve ação militar, controle rigoroso de fronteiras e troca de informações, além de operações conjuntas entre as forças de defesa e segurança dos países africanos.
Investimento em Jovens e Integração como Estratégias de Segurança
O presidente de Serra Leoa, Julius Maada Bio, conectou os problemas de segurança à falha na representação estatal e à falta de oportunidades para a juventude. Ele argumentou que o investimento na juventude não deve ser visto apenas como política social, mas como uma estratégia de segurança nacional, pois o extremismo e o crime organizado prosperam onde há desespero e falhas de governança. Bio, que vivenciou a guerra civil em seu país, enfatizou que a paz é mais do que a ausência de conflito, é a dignidade e a crença no futuro. Ele reforçou a ideia de que a estabilidade, a integração e a soberania são inseparáveis e fundamentais para a prosperidade africana, clamando por soluções africanas baseadas na realidade do continente, com parcerias que respeitem a autonomia regional.
Fortalecendo a Integração Econômica e a Cooperação
O presidente da Mauritânia, Mohamed Cheikh El Ghazouani, destacou que a integração é uma necessidade para a África enfrentar a globalização, a fragmentação das cadeias de valor e as transformações geopolíticas. Ele defendeu o fortalecimento da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) como um motor de transformação econômica, ao facilitar o comércio, a circulação de bens, serviços e pessoas. El Ghazouani ressaltou que a integração reforça as complementaridades regionais e amplia a voz do continente no cenário internacional. O líder mauritano também mencionou que a saída de Mali, Níger e Burkina Faso da Cedeao representa um desafio que precisa ser superado para manter a união e a força do bloco econômico, em busca de manter a unidade e o desenvolvimento do continente africano.
