Feminicídios em SP: Estado Registra Aumento Alarmante em Janeiro; Especialistas Alertam para Ciclo de Violência e Machismo Sistêmico
O estado de São Paulo iniciou o ano com um cenário preocupante no que diz respeito à violência contra a mulher. Em janeiro deste ano, o número de vítimas de feminicídio registrou um aumento significativo em comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram 27 mulheres assassinadas, cinco a mais do que as registradas em janeiro de 2025.
Esses dados alarmantes foram divulgados pela Secretaria da Segurança Pública do estado (SSP) e apontam para a urgência de se discutir e implementar medidas mais eficazes de prevenção e combate a este crime hediondo. A maioria dos casos ocorreu nas cidades do interior paulista, onde 20 mortes foram registradas, com 12 prisões em flagrante. As demais vítimas foram mortas na capital e na região metropolitana.
A pesquisadora Daiane Bertasso, do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) da Universidade Estadual de Londrina (Uel), explica que o feminicídio não é um crime isolado, mas sim o resultado de um longo e complexo ciclo de violências que muitas vezes são negligenciadas. Conforme informação divulgada pela SSP.
O Ciclo da Violência e a Invisibilidade dos Sinais
Bertasso enfatiza que o feminicídio é a ponta de um iceberg de violências que se agravam ao longo do tempo. “O feminicídio não é um crime inesperado. É um crime que resulta de relações familiares e íntimas. E ele se dá depois de um ciclo de violências de vários tipos”, explica a pesquisadora.
Ela ressalta a importância da Lei Maria da Penha em tipificar as diversas formas de violência, como a psicológica, emocional e patrimonial, evidenciando como esse ciclo se intensifica. O machismo e a misoginia, enraizados em uma sociedade que ainda prioriza valores masculinos, contribuem para que os sinais de alerta sejam ignorados.
Muitas vezes, a mulher se sente intimidada e envergonhada, o que dificulta a comunicação com familiares. Quando ela decide compartilhar, a resposta pode ser minimizadora, como se fosse apenas uma fase. Essa falta de acolhimento agrava a situação de vulnerabilidade.
Masculinidade Tóxica e a Urgência de Políticas Públicas Efetivas
Casos recentes, que ganharam destaque na mídia, demonstram que mesmo mulheres com medidas protetivas contra seus agressores não encontraram a devida segurança do Estado, culminando em suas mortes. “Seria importante a gente ter políticas públicas mais eficazes e que essas mulheres possam se sentir de fato acolhidas”, defende Bertasso.
A pesquisadora também aponta a masculinidade tóxica como um vetor de violência. Redes como a “machosfera” fortalecem ideais machistas e misóginos, moldando jovens e crianças com esses pensamentos. “A gente tem uma linha de pesquisa que estuda a machosfera, e a gente tem percebido que essas redes têm fortalecido muito esses ideais [machistas e misóginos]. E isso, infelizmente, está formando jovens e crianças com esse pensamento.”
Para combater essa realidade, Bertasso sugere a implementação de educação sobre relações de gênero nas escolas como medida obrigatória. O objetivo é evitar que crianças e jovens sejam influenciados por conteúdos nocivos em espaços digitais de difícil controle.
Um Cenário Nacional Preocupante
O Brasil enfrentou um recorde de feminicídios em 2025, com 1.518 vítimas, o que equivale a quatro mortes por dia, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Este número já representava um aumento em relação a 2024, quando foram registradas 1.458 vítimas.
Em 2025, São Paulo também atingiu o maior número de feminicídios desde o início da série histórica em 2018, com 270 vítimas, um aumento de 6,7% em relação ao ano anterior. Os dados são da Secretaria da Segurança Pública do estado (SSP).
