Domingo, 12 de Julho de 2026 às 15:05
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Dor de Crescimento em Crianças: Estudo Revela Que 86% Se Recuperam, Mas Alerta Para Recorrência e Impacto na Vida Adulta

Entenda a ‘dor de crescimento’ e a importância do acompanhamento e tratamento adequado

A queixa de dores nos ossos, ligamentos ou músculos em crianças e adolescentes é comum, afetando até três em cada dez jovens no Brasil. Popularmente conhecida como ‘dor de crescimento’, essa condição, apesar de não estar diretamente ligada a traumas ou esforços específicos, pode ser severa o suficiente para levar os jovens a faltar à escola e abandonar atividades rotineiras e de lazer.

Um estudo recente publicado no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy trouxe novas perspectivas sobre o tema. A pesquisa acompanhou 694 jovens e revelou que a grande maioria, cerca de 86%, consegue se recuperar do problema em um período de 18 meses. No entanto, um dado importante é que aproximadamente 32% dos pacientes que apresentam melhora voltam a sentir dor em algum momento, o que sublinha a necessidade de atenção contínua.

Essas descobertas desafiam a ideia de que a ‘dor de crescimento’ é algo a ser simplesmente ignorado, esperando que desapareça com o tempo. A pesquisa, que envolveu jovens de escolas públicas e privadas no Ceará e em São Paulo, indica que, embora a dor possa sumir espontaneamente na maioria dos casos, ela persiste em até 14% dos pacientes, exigindo uma abordagem mais cuidadosa e investigativa. Conforme informação divulgada pela pesquisa, a dor musculoesquelética em crianças e adolescentes é subestimada e pouco estudada, sendo frequentemente associada a um mito sem comprovação científica de que estirões de crescimento causam dor.

A dor que não deve ser ignorada

Tiê Parma Yamato, pesquisadora associada da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid) e da Universidade de Sydney (Austrália) e coordenadora do estudo, enfatiza que a ‘dor de crescimento’ é ainda muito subestimada e pouco investigada. Essa desvalorização pode levar a tratamentos inadequados ou à minimização das queixas por parte da família e do sistema de saúde.

A especialista alerta que a dor, mesmo que temporária, pode ser um sinal de alerta. “É uma dor ainda muito subestimada e pouco estudada, apesar de comum. Isso faz com que crianças e adolescentes muitas vezes recebam um tratamento inadequado ou que suas queixas sejam pouco valorizadas pela família e pelo sistema de saúde. E não é algo para simplesmente esperar que passe”, afirma Yamato.

O estudo identificou que fatores como a qualidade de vida e a idade são preditores importantes para a recuperação. Crianças mais novas e com melhor qualidade de vida tendem a apresentar melhora espontânea com mais facilidade. Contudo, à medida que entram na adolescência, as chances estatísticas de melhora diminuem, reforçando a urgência de uma intervenção precoce.

Um problema com reflexos na vida adulta

Yamato explica que a dor recorrente ou incapacitante na infância e adolescência é um fator de risco conhecido para o desenvolvimento de condições crônicas na vida adulta. “Entender o curso dessa dor na infância permite identificar quem precisa de atenção precoce para possivelmente evitar que se tornem adultos com problemas de saúde persistentes”, ressalta.

A dor crônica, como a lombar, é um dos maiores impactos na saúde global, gerando custos financeiros expressivos para os sistemas públicos de saúde. “Tratar o problema na base pode ser uma forma de reduzir esse impacto econômico e social no futuro”, defende a pesquisadora.

O trabalho, apoiado pela Fapesp, é pioneiro em analisar o prognóstico da dor musculoesquelética em jovens, investigar fatores relacionados à recuperação e recorrência, e apresentar dados de países de baixa e média renda.

Desvendando as causas e a importância do contexto

As costas foram a parte do corpo mais afetada nos participantes do estudo (51,3%), seguidas pelas pernas (42,5%) e pescoço (20,5%). No entanto, a dor pode surgir em qualquer articulação, osso ou músculo. A causa exata da dor musculoesquelética em crianças e adolescentes ainda é desconhecida, o que dificulta diagnósticos em exames de imagem, tornando o relato do paciente fundamental.

O uso do termo ‘dor de crescimento’ pode levar pais e profissionais a subestimar dores reais e incapacitantes, resultando na falta de diagnósticos claros e protocolos de tratamento adequados. “Por isso, a orientação para a prática clínica é tranquilizar as famílias sobre o bom prognóstico, mas manter um acompanhamento atento àqueles que apresentam episódios frequentes e/ou recorrentes de dor, visando interromper a trajetória rumo à dor crônica na vida adulta”, orienta Yamato.

O estudo também aponta que a qualidade do sono, sintomas psicossomáticos e a harmonia familiar podem influenciar a dor. “Como descobrimos que a dor pode estar conectada a outras questões, como qualidade do sono, sintomas psicossomáticos e harmonia das relações familiares, o ambiente emocional também surge como possível preditor para a recuperação. Por isso, sugere-se que profissionais de saúde deem atenção especial à avaliação da qualidade de vida das crianças e adolescentes, indo além da análise apenas física da dor para entender o contexto de vida desse jovem”, alerta a pesquisadora.

Acompanhamento é chave para evitar cronicidade

A pesquisa, que monitorou 694 jovens por 18 meses, demonstrou que, apesar da alta taxa de recuperação, a recorrência da dor é uma realidade para uma parcela significativa dos pacientes. Isso reforça a importância de um acompanhamento médico e terapêutico contínuo, mesmo após a melhora inicial dos sintomas.

Profissionais de saúde devem, portanto, não apenas aliviar a dor imediata, mas também investigar as causas subjacentes e os fatores de risco que podem levar à cronificação do quadro. Uma abordagem multidisciplinar, que considere o bem-estar físico e emocional do jovem, é essencial para garantir um desenvolvimento saudável e prevenir problemas futuros.

A identificação precoce de padrões de dor recorrente e a intervenção adequada são cruciais para quebrar o ciclo que pode levar à dor crônica na vida adulta, impactando negativamente a qualidade de vida e gerando altos custos para o sistema de saúde. O estudo brasileiro é um passo importante para que a ‘dor de crescimento’ seja tratada com a seriedade que merece.

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