Sábado, 15 de Agosto de 2026 às 17:09
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Desertificação no Brasil: 39 Milhões Ameaçados, Caatinga é Solução Global e COP17 Discute Futuro Hídrico

Desertificação no Brasil: 39 Milhões Ameaçados, Caatinga é Solução Global e COP17 Discute Futuro Hídrico

Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em áreas sob ameaça de desertificação, um processo de degradação ambiental que reduz a capacidade da terra de reter água e sustentar vida. Este fenômeno, frequentemente mal compreendido por não se tratar de desertos típicos como o Saara, afeta comunidades vulneráveis e tradicionais, mas seus impactos se estendem por todo o país, comprometendo a segurança hídrica e alimentar.

A expansão da área desertificada no Brasil é alarmante. Entre 2000 e 2020, o território afetado cresceu em 170 mil km², equivalente à soma dos estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. O fenômeno concentra-se no Nordeste, mas avança também em partes de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul, conforme dados recentes da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

Diante desse cenário, representantes brasileiros participam da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), na Mongólia, buscando soluções e articulando políticas públicas para reverter esse quadro. A discussão sobre a desertificação no Brasil ganha urgência, pois o país possui um bioma, a Caatinga, que se revela fundamental na luta contra as mudanças climáticas.

A Ameaça Silenciosa da Desertificação no Brasil

O termo desertificação pode soar estranho no contexto brasileiro, que não possui desertos como o Saara ou o Atacama. No entanto, a desertificação é um processo mais amplo de degradação ambiental onde terras antes produtivas perdem sua capacidade de sustentar vida. Isso ocorre principalmente devido a atividades humanas, como desmatamento e agricultura inadequada, além de variações climáticas.

Atualmente, cerca de 18% do território brasileiro está classificado como Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD). O avanço desse processo impacta diretamente as populações mais vulneráveis, como sertanejos, agricultores familiares, povos indígenas e comunidades quilombolas, que dependem diretamente dos recursos naturais para sua subsistência. A coordenadora executiva da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), Ivi Aliana, enfatiza que essas comunidades são as primeiras a sentir os efeitos da perda de água e biodiversidade.

Contudo, a desertificação não é um problema isolado. Seus efeitos se propagam, afetando a produção de alimentos em larga escala, a disponibilidade de água potável e a economia nacional. O aumento das temperaturas e a escassez de recursos hídricos nas áreas afetadas têm reflexos diretos tanto no campo quanto nas grandes cidades brasileiras, evidenciando a necessidade de uma abordagem integrada.

Caatinga: Um Tesouro Natural na Luta Contra o Aquecimento Global

Dentre os seis biomas brasileiros, a Caatinga, localizada predominantemente no Nordeste, é a que apresenta os níveis mais críticos de deterioração do solo. Cerca de 11% de sua área, o equivalente a 100 mil km², encontra-se em situação crítica e severa, com 42,6% de sua vegetação nativa já suprimida. Proteger este bioma é, portanto, crucial não apenas para a biodiversidade e as populações locais, mas também para o equilíbrio climático global.

Pesquisas recentes revelam o papel protagonista da Caatinga na mitigação das mudanças climáticas. O bioma demonstra uma eficiência de 58% na absorção de carbono, superando outros biomas brasileiros. Surpreendentemente, 72% desse carbono fica armazenado no solo, funcionando como um “cofre natural” de longo prazo e ajudando a regular o clima, mesmo em condições áridas.

Um estudo publicado na revista Science of the Total Environment confirmou que, em 2022, a Caatinga foi responsável por cerca de 50% de todo o sequestro líquido de carbono do Brasil, compensando uma parcela significativa das emissões nacionais de gases de efeito estufa. O pesquisador do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), Aldrin Martin Pérez-Marín, destaca a resiliência da Caatinga em “guardar vida e equilibrar o clima”, ressaltando que ela é parte fundamental da solução para a crise climática.

Políticas Públicas e Iniciativas para Combater a Desertificação

O Brasil, signatário da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) desde 1997, tem buscado reverter o quadro de degradação do solo através de políticas públicas e programas específicos. O Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043), lançado em março de 2023, articula diversas áreas, como meio ambiente, educação, saúde e infraestrutura, visando enfrentar o problema de forma integrada.

Outra iniciativa promissora é o Programa Recaatingar, lançado em junho deste ano. Com a meta de recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga nos próximos 20 anos, o programa foca na segurança hídrica, restauração socioprodutiva e adaptação às mudanças climáticas. A metodologia se inspira no conhecimento tradicional das comunidades locais para o manejo da biodiversidade e do solo.

Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (DCDE), explica que o Recaatingar promove não apenas a recuperação ambiental, mas também a geração de trabalho e renda, além de contribuir para enfrentar desastres climáticos. A tecnologia social do recaatingamento já demonstrou resultados significativos, como o aumento da oferta de forragem, da biomassa e a proteção do solo contra a erosão, segundo Aldrin Martin Pérez-Marín.

A Importância da Participação Brasileira na COP17

A participação do Brasil na COP17 é vista como uma oportunidade crucial para reforçar a importância da Caatinga nas discussões globais sobre desertificação e clima. O pesquisador Aldrin Martin Pérez-Marín alerta que a exclusão explícita do bioma em documentos científicos pode deixá-lo fora do radar oficial da Convenção até 2030, comprometendo futuras ações de pesquisa e financiamento.

A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA), com mais de 25 anos de atuação, tem sido fundamental na promoção de soluções e tecnologias para as comunidades afetadas. Programas de captação de água da chuva, construção de cisternas e o fortalecimento de sementes adaptadas ao clima semiárido são exemplos de iniciativas que buscam garantir a segurança hídrica e alimentar, promovendo a agricultura familiar e a agroecologia.

Ivi Aliana, da ASA, reitera que o combate à desertificação passa pelo protagonismo das pessoas que vivem e cuidam desses territórios. A recuperação de áreas degradadas é vista como um caminho estratégico para garantir trabalho, emprego e renda, ao mesmo tempo em que se promove um serviço essencial para a humanidade enfrentar a crise climática. A Agência Brasil acompanha a COP17 diretamente da Mongólia, em parceria com a UNCCD, para trazer informações detalhadas sobre os debates e seus impactos para o Brasil.

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