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Respiração Ativa Revela Nova Causa da Hipertensão Resistente: Neurônios da Expiração Podem Ser a Chave

Alterações na respiração podem explicar por que muitos pacientes com hipertensão não controlam a pressão, mesmo com tratamento.

Cerca de 40% das pessoas diagnosticadas com hipertensão arterial continuam com a pressão elevada, mesmo utilizando medicamentos. Essa persistência da condição, que afeta cerca de 1,4 bilhão de pessoas globalmente, tem intrigado a comunidade médica. Agora, uma nova pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) sugere que alterações nos padrões respiratórios podem ser um fator determinante nesse cenário, abrindo novas avenidas para o tratamento da hipertensão.

A descoberta, publicada na revista científica Circulation Research, indica que a forma como respiramos, especialmente a expiração ativa que envolve contrações dos músculos abdominais, pode estar diretamente ligada ao desenvolvimento e à manutenção da hipertensão. Essa relação abre portas para a busca de novas estratégias terapêuticas, focando não apenas no sistema cardiovascular, mas também no controle da respiração.

Os achados da USP, baseados em estudos com modelos animais, identificaram uma região específica no tronco encefálico, chamada parafacial lateral (pFL), como um ponto crucial nessa conexão. Essa área do cérebro parece modular a atividade do sistema nervoso simpático durante a expiração, levando ao estreitamento dos vasos sanguíneos e, consequentemente, a picos de pressão arterial. Conforme informação divulgada pela Agência FAPESP, essa descoberta tem implicações significativas para o tratamento da hipertensão neurogênica, caracterizada por disfunções no sistema nervoso central.

Neurônios da Expiração Ativa e seu Impacto na Pressão Arterial

Pesquisadores da USP descobriram que neurônios localizados na região parafacial lateral (pFL) no tronco encefálico desempenham um papel fundamental no controle da expiração ativa. Essa região, responsável por controlar a contração muscular durante a expiração, também demonstrou modular a atividade simpática. Essa modulação pode levar ao aumento da pressão arterial, contribuindo para o quadro de hipertensão neurogênica.

Em experimentos com ratos, a ativação desses neurônios da pFL resultou em um aumento da atividade simpática e, consequentemente, na elevação da pressão arterial. Por outro lado, a inibição desses mesmos neurônios foi capaz de normalizar a pressão arterial em modelos de hipertensão neurogênica induzida por hipóxia crônica intermitente, uma condição frequentemente associada à apneia obstrutiva do sono.

O professor Davi José de Almeida Moraes, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e autor correspondente do estudo, destacou a surpresa com a descoberta. “Ficamos surpresos com esse resultado de que os neurônios da expiração ativa têm a capacidade de impactar a função cardiovascular. Isso tem implicações em condições patológicas, como a hipertensão arterial. Por isso, propusemos que a região parafacial lateral seja um possível alvo terapêutico para tratamento da hipertensão”, explicou à Agência FAPESP.

Novas Abordagens Terapêuticas Focadas nos Sensores de Oxigênio

A proposta terapêutica derivada desta pesquisa não visa modular diretamente o sistema nervoso central. Em vez disso, os cientistas sugerem manipular farmacologicamente os sensores de oxigênio para reduzir a atividade dos neurônios da pFL. Isso seria feito por meio de receptores para o ATP (adenosina trifosfato), uma molécula que, além de fonte de energia, atua como neurotransmissor.

O professor Moraes explicou que a estratégia envolve a inibição de receptores específicos no corpúsculo carotídeo, localizado nas artérias carótidas. Essa abordagem, que já demonstrou ser eficaz na redução da atividade simpática e da pressão arterial em estudos anteriores, agora é conectada diretamente à influência dos neurônios da pFL.

Hipertensão: Um Desafio Global com Implicações Cardiovasculares

A hipertensão arterial é reconhecida como o principal fator de risco isolado para doenças cardiovasculares, incluindo ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e doenças renais crônicas. Diversos fatores contribuem para o seu desenvolvimento, como tabagismo, consumo de álcool, obesidade, estresse, excesso de sal na dieta, altos níveis de colesterol e sedentarismo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 1,4 bilhão de pessoas no mundo sofram de hipertensão. Apenas uma em cada cinco pessoas consegue controlar a condição com medicamentos ou mudanças no estilo de vida. Recentemente, as diretrizes brasileiras sobre hipertensão foram atualizadas, alinhando o patamar de pressão arterial de risco aos padrões internacionais, onde o antigo “12 por 8” (120/80 mmHg) agora é classificado como pré-hipertensão, um sinal de alerta para a adoção de medidas preventivas.

Técnicas Avançadas Revelam a Conexão Cérebro-Pressão Arterial

Para desvendar essa complexa relação, os cientistas empregaram técnicas avançadas de manipulação e registro da atividade neuronal em ratos. A região parafacial lateral (pFL) foi manipulada utilizando transfecção viral, um método que introduz genes em células para reprogramá-las e estudar o controle cerebral de funções vitais.

Por meio de modulação optogenética e farmacogenética, os pesquisadores puderam excitar ou inibir os neurônios da pFL, registrando simultaneamente a atividade simpática, respiratória e a pressão arterial. Os resultados foram claros: a ativação desses neurônios desencadeou a expiração ativa e elevou a pressão arterial, enquanto a inibição farmacogenética reverteu esse quadro, normalizando a pressão em ratos hipertensos.

“Nunca tinha sido demonstrado que os neurônios que geram atividade expiratória se comunicavam com os que controlam a atividade simpática e o diâmetro dos vasos sanguíneos para impactar a pressão arterial. Esse foi um resultado inédito do trabalho”, concluiu Moraes, que contou com a colaboração de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia.

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