USP Inova com Nanotecnologia para Tratar Doenças de Pele com Precisão Molecular
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirãopreto desenvolveram uma tecnologia revolucionária que pode transformar o tratamento de condições como psoríase e vitiligo. A plataforma utiliza nanopartículas para entregar moléculas terapêuticas diretamente às células da pele.
Essa abordagem inovadora visa silenciar os genes responsáveis pela inflamação crônica e outros processos patológicos, oferecendo um tratamento mais preciso e com potencial para minimizar efeitos colaterais indesejados.
Os avanços dessa pesquisa foram apresentados na FAPESP Week Londres, destacando o pioneirismo brasileiro na área da nanomedicina. Conforme informado pela Agência FAPESP, o trabalho é financiado pela FAPESP e pelo CNPq, através do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Nanotecnologia Farmacêutica.
Nanopartículas Lipídicas: A Chave para a Entrega Terapêutica
A coordenadora do NanoGeneSkin, Maria Vitória Bentley, explica que o grupo acumula duas décadas de experiência no desenvolvimento de nanopartículas lipídicas. Essas estruturas são projetadas para carregar não apenas medicamentos, mas também RNAs de interferência, moléculas capazes de interagir com genes específicos.
O objetivo é tratar doenças cutâneas crônicas, como a psoríase, que afeta entre 2% e 3% da população mundial, impactando cerca de 190 milhões de pessoas globalmente e aproximadamente 5 milhões no Brasil. A psoríase é caracterizada por lesões inflamatórias severas na pele, decorrentes de uma resposta exagerada do sistema imunológico.
O vitiligo, outra doença no foco da pesquisa, causa a destruição dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, levando ao branqueamento progressivo da pele. Ambas as condições compartilham a superexpressão de genes específicos que dirigem o processo patológico.
RNA de Interferência: Silenciando Genes Problemáticos
A tecnologia emprega o RNA de interferência (siRNA), moléculas sintéticas que atuam diretamente no RNA mensageiro. Elas degradam a instrução genética antes que a proteína inflamatória nociva seja produzida, funcionando como uma interceptação precisa da ordem de fabricação celular.
O resultado é a redução dos mediadores inflamatórios a níveis normais, sem a necessidade de medicamentos sistêmicos que frequentemente causam efeitos colaterais. Bentley resume a abordagem como “nanomedicina de precisão”, onde um alvo genético específico é identificado e silenciado por um RNA complementar.
O transporte dessas moléculas até as células da pele apresenta desafios, pois o RNA é frágil e a pele é uma barreira biológica eficaz. A solução encontrada foram as nanopartículas de cristais líquidos, estruturas lipídicas com organização interna ordenada, que protegem o material genético e facilitam sua penetração e captação pelas células.
Versatilidade da Nanotecnologia Brasileira
As pesquisas do grupo demonstram a funcionalidade dessas nanopartículas para o silenciamento gênico. Métodos como a fotoativação por luz podem potencializar a liberação do RNA dentro das células. Além disso, é possível carregar múltiplas moléculas de RNA e até fármacos anti-inflamatórios convencionais na mesma nanopartícula.
Essa capacidade de carregar múltiplos alvos é particularmente promissora para a psoríase, uma doença com uma cascata inflamatória complexa. A estratégia visa atingir diversos pontos da reação em cadeia, aumentando a eficácia do tratamento.
Os resultados foram validados em modelos celulares e em animais com lesões induzidas, semelhantes às observadas em pacientes. A plataforma também está sendo aplicada ao tratamento do vitiligo, para o qual o grupo já possui uma patente, e na cicatrização de feridas crônicas.
Aplicações Além das Doenças de Pele e Perspectivas Futuras
A tecnologia vai além das doenças de pele, com o desenvolvimento de nanoestruturas para entrega de mRNA. Essa aplicação tem potencial em vacinas, incluindo uma vacina experimental contra o câncer, seguindo o mesmo princípio das vacinas de mRNA contra a COVID-19.
Em modelos animais, a vacina experimental contra o câncer induziu a regressão ou inibiu o crescimento de tumores. A tecnologia já atraiu o interesse de empresas farmacêuticas, indicando um futuro promissor para sua translação clínica.
Com duas patentes depositadas e processos de escalonamento industrial em andamento, como a liofilização para aumentar a validade e facilitar a comercialização, o grupo da USP foca em transformar essa descoberta científica em um produto acessível aos pacientes. O objetivo é viabilizar a tecnologia em larga escala, com conversas avançadas para licenciamento e avaliação dos caminhos para a aplicação clínica.
