Professora Débora Garofalo: Inovação e Impacto na Educação Brasileira
Débora Garofalo, uma educadora paulistana, provou que a criatividade e a persistência podem transformar realidades. Em 2015, ela iniciou um projeto inovador de robótica com sucata em uma escola municipal na periferia de São Paulo. O que começou como uma iniciativa local, rapidamente ganhou projeção nacional e internacional, rendendo prêmios e reconhecimento.
Seu trabalho com alunos do ensino fundamental, utilizando materiais descartados para construir robôs, não só estimulou o aprendizado tecnológico, mas também gerou resultados sociais significativos. A redução da evasão escolar e do trabalho infantil são apenas alguns dos impactos positivos dessa abordagem pedagógica.
A trajetória de Débora Garofalo é um exemplo de como a paixão pelo ensino pode superar obstáculos e inspirar mudanças. Sua visão sobre o uso de tecnologia na educação, que não se limita a telas, tem sido fundamental para moldar o futuro da educação no Brasil. Conforme informações divulgadas pela Agência Brasil, Débora compartilhou detalhes sobre a origem do projeto, desafios enfrentados e as conquistas alcançadas.
O Nascimento de um Projeto Inovador com Sucata
O projeto de robótica com sucata teve início em 2015, na EMEF Almirante Ary Parreiras, uma escola localizada entre quatro grandes favelas de São Paulo. Débora Garofalo, então professora de língua portuguesa, viu a oportunidade de inovar ao se candidatar a uma vaga na área de tecnologia e inovação. Ela buscou ressignificar o território educativo através da programação e robótica.
Uma pesquisa com os estudantes revelou que 70% deles consideravam o lixo um problema sério em suas vidas, afetando a frequência escolar e causando doenças. Diante disso, Débora decidiu transformar o lixo em objeto de conhecimento, mesmo ciente do trabalho que isso demandaria. O primeiro protótipo, um carrinho feito com lixo e uma bexiga, utilizando a Terceira Lei de Newton, tornou-se um sucesso imediato na escola.
O entusiasmo dos alunos foi contagiante. Colegas de Débora relataram que crianças traziam tampinhas, rolinhos e bexigas, expressando o desejo de ter aula com a “professora de robótica”. Essa receptividade confirmou que Débora havia encontrado um caminho promissor, que precisava ser aprimorado.
Impacto Comunitário e Resultados Tangíveis
Para engajar a comunidade, a escola promovia feiras de tecnologias. A feira de 2019 reuniu mais de 500 pessoas, apresentando desde pipoqueiras feitas com latinhas até protótipos impressionantes, como filtros de água e sensores para alertar sobre transbordamentos de córregos. Essa iniciativa fomentou uma cultura de inovação entre os estudantes.
Em apenas três anos e meio, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da escola nos anos finais saltou de 4,2 para 5,2, atingindo a média nacional da época. Mais de uma tonelada de lixo foi recolhida das ruas e transformada em protótipos. A evasão escolar foi reduzida em impressionantes 93%, com estudantes em risco sendo reintegrados à escola para auxiliar em projetos, recebendo alimentação e certificados de voluntariado.
O trabalho infantil, um ponto crucial, foi diminuído em 95%. Débora também buscou a conscientização dos familiares sobre a importância de erradicar essa prática, trazendo representantes do setor público, como juízes, para dentro da escola. O projeto, portanto, gerou um impacto profundo em toda a comunidade.
Do Projeto Escolar à Política Pública Estadual
O sucesso do projeto de robótica com sucata levou Débora Garofalo a aceitar um convite para atuar na Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. O objetivo era transformar o projeto em currículo estadual, alcançando 5,4 mil escolas e 3,7 milhões de estudantes. O desafio era garantir que os professores trabalhassem a criatividade e a importância do material, sem necessariamente recolherem lixo das ruas.
Com a experiência no estado, percebeu-se que era possível ir além. Foi criada a prática “Expo Movimento Inova”, que reunia estudantes de todo o estado, promovendo o pertencimento à rede de ensino. Outra política pública implementada foi o Centro de Inovação da Educação Básica Paulista, transformando escolas ociosas em centros de inovação para que os alunos pudessem desenvolver projetos criativos.
Em 2022, Débora deixou a Secretaria com 18 centros de inovação, uma carreta móvel e um currículo pioneiro de tecnologia e inovação, anterior à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) da Computação. Posteriormente, atuou no Rio de Janeiro, auxiliando na estruturação de Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs), lançando 300 escolas vocacionadas à tecnologia. Sua expertise também tem sido compartilhada com outros estados e municípios por meio de formação docente e consultoria.
Reconhecimento Internacional e Visão sobre Tecnologia na Educação
Débora Garofalo foi surpreendida com o prêmio Global Teacher Influencer of the Year, em Dubai. Ela foi reconhecida por seu impacto além da sala de aula, como política pública, sendo a primeira a receber essa honraria. A educadora relembrou o momento em que esteve entre os dez melhores do Global Teacher Prize em 2019, o “Nobel da Educação”, e sentiu-se representada por todos os professores e estudantes brasileiros.
Um dos principais obstáculos para a utilização da tecnologia nas escolas, segundo Débora, é a falta de suporte técnico, recursos, infraestrutura e formação para os professores, apesar da obrigatoriedade da BNCC da Computação. Ela defende que a tecnologia deve ser integrada com criticidade, ética e responsabilidade.
Proibir o celular em sala de aula, em sua opinião, é um “tiro no pé”. A solução seria promover uma educação midiática, formando professores e alunos para uma utilização consciente e crítica. A tecnologia por si só não resolve os problemas educacionais, ela precisa ser acompanhada de resoluções de problemas e amabilidade, promovendo o processo de erro e frustração, essenciais para o desenvolvimento socioemocional.
Desmistificando o Uso de Telas e a Importância do “Mão na Massa”
Débora Garofalo ressalta que o uso de tecnologia na escola não está necessariamente atrelado ao uso de telas. Ela cita o exemplo de São Paulo, onde a distribuição de tablets para todos os estudantes não resolveu os problemas educacionais, pois faltou a intencionalidade pedagógica. A infraestrutura é importante, mas a intencionalidade na ponta é o que faz a diferença.
A educadora exemplifica que muitas ações surgem da atitude e da observação. Seu projeto de robótica com sucata nasceu da solução encontrada em um problema trazido pelos próprios alunos. “O que a gente precisa muitas vezes é olhar para o lado e entender que o simples funciona”, afirma.
O livro “Robótica com Sucata – Uma aventura pela criatividade”, publicado pela editora Moderna, foi criado para democratizar o acesso a esse conhecimento. O objetivo é inspirar professores a aplicarem o projeto em sala de aula, de forma prática e envolvente, conectando a leitura e a literatura com a história da ciência. A proposta é mostrar que as crianças podem transformar objetos cotidianos em invenções.
“A gente passou muito tempo com uma educação tradicional passiva. E a gente sabe que a aprendizagem, para ser efetiva, ela precisa ser ativa. Para isso, o estudante tem que errar, tem que idealizar, tem que construir, tem que testar, tem que colaborar”, conclui Débora, reforçando a importância de uma educação “mão na massa”. O sucesso do primeiro livro levou à produção de um segundo volume, com um terceiro previsto para o segundo semestre.
