Gaza: Três Anos de “Paz” com Bombas Diárias e Futuro Incerto
O conflito em Gaza atinge um novo marco sombrio, com o aniversário de três anos do ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro marcado por uma realidade desoladora. O tão falado “plano de paz” mediado pelos Estados Unidos não avançou, e a Faixa de Gaza permanece sob ocupação israelense, com bombardeios diários intensificando o sofrimento da população civil.
Relatórios da ONU pintam um quadro alarmante da situação humanitária. A fome se agrava, a ajuda humanitária é escassa e a reconstrução parece um sonho distante. Especialistas apontam para um impasse político que perpetua o ciclo de violência e desesperança, afetando profundamente a resistência palestina.
Enquanto isso, a Cisjordânia também testemunha um aumento na violência e na expansão de assentamentos israelenses, complicando ainda mais as perspectivas de uma solução pacífica. Acompanhe os detalhes dessa crise humanitária e política que completa três anos de desolação.
Bombardeios Diários e Mortes Persistentes em Gaza
Relatórios do Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (Ocha) revelam que os bombardeios aéreos de Israel contra áreas densamente povoadas em Gaza são diários. Entre 23 e 30 de setembro, o Ministério da Saúde local registrou 29 mortos e 147 feridos. Desde o anúncio de um cessar-fogo há cerca de um ano, em 10 de outubro de 2025, aproximadamente 1.431 palestinos foram mortos, uma média de quase quatro óbitos por dia.
A professora de relações internacionais Isabela Agostinelli, da Fecap, avalia que a situação dos quase 2 milhões de palestinos não melhorou com o suposto cessar-fogo. Ela descreve o cenário como “catastrófico”, com pouca ajuda humanitária permitida por Israel, que controla as fronteiras.
“O Conselho de Paz presidido por Trump não trouxe paz em nenhum sentido, não há perspectiva de reconstrução de Gaza”, afirmou Agostinelli. O Ocha da ONU também alerta que a produção diária de refeições quentes em Gaza diminuirá “significativamente” devido à falta de financiamento, com apenas 40% dos US$ 4 bilhões solicitados para ajuda humanitária recebidos. Estima-se que 1,4 milhão de pessoas enfrentem insegurança alimentar aguda até o fim do ano.
Impasse no Desarmamento do Hamas e Bloqueio à Reconstrução
Um dos principais impasses no “plano de paz” americano, segundo o professor Bruno Huberman, da PUC-SP, é a exigência de desarmamento do Hamas antes da saída de Israel de Gaza. O Hamas só aceita se desarmar após a retirada israelense, um ciclo vicioso que os Estados Unidos não conseguem destravar.
Huberman também aponta que Israel impede o retorno do “comitê tecnocrático” de palestinos, sem vínculos partidários, que seria responsável pela reconstrução de Gaza. Esses palestinos, que estiveram no Cairo em novembro de 2025 para discutir a reconstrução, estão exilados no Egito pois Israel proíbe sua entrada no enclave.
O ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, condiciona a transferência do governo civil do Hamas para o Comitê Nacional para Administração de Gaza (NCAG) à total desmilitarização dos grupos palestinos. Paralelamente, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu admitiu em junho de 2025 apoiar grupos armados em Gaza opostos ao Hamas para “poupar a vida de soldados israelenses”, conforme noticiado pelo jornal The Times of Israel.
Desesperança Palestina e Fortalecimento da Direita Israelense
Os três anos de conflito têm testado a resiliência do povo palestino. Bruno Huberman observa uma “apatia e desesperança inédita” entre os palestinos com quem mantém contato. Ele relata que, apesar da histórica capacidade de resistência, o sentimento atual é de um desânimo sem precedentes.
Por outro lado, Huberman avalia que os eventos de 7 de outubro fortaleceram o plano do partido Likud, de Benjamin Netanyahu, para os territórios palestinos, minando a posição interna em Israel que defendia a coexistência pacífica. “O campo da paz em Israel meio que deixou de existir”, lamenta o analista.
O ataque de 7 de outubro é visto como um “erro estratégico” do Hamas, que não teria previsto a magnitude da reação israelense e americana. “A gente não vê no horizonte próximo um Estado palestino sendo criado”, conclui Huberman. O Hamas, em um acordo frágil com Trump, aceita depor armas em troca de uma reconstrução que não começa, enquanto Israel continua a enfraquecer o grupo, armando milícias para substituí-lo.
Aceleração da Colonização e Violência na Cisjordânia
Paralelamente à situação em Gaza, a colonização na Cisjordânia se acelerou desde 7 de outubro, com um aumento na violência no outro território palestino ocupado. Isabela Agostinelli destaca a expansão desenfreada de assentamentos e a tentativa de expulsão de palestinos de suas casas, com a anuência do Estado israelense.
Israel justifica suas ações na Cisjordânia como parte do “combate ao terrorismo”, enquanto o governo Netanyahu não reconhece o direito palestino às terras da região. Bruno Huberman acrescenta que os ataques de colonos israelenses na Cisjordânia aumentam o isolamento do chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas.
Diante da impossibilidade de libertar Marwan Barghouti, uma ala mais à esquerda do Fatah busca alianças com a Jihad Islâmica e o Hamas para as próximas eleições, visando um governo de coalizão nacional que possa substituir Abbas. A Autoridade Palestina marcou para 28 de novembro a votação para o Parlamento, quase 20 anos após a última eleição legislativa.
