Quarta-feira, 22 de Julho de 2026 às 12:14
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Orides Fontela: A Poeta “Coração Selvagem” Que A Flip Revela ao Brasil Após Décadas de Invisibilidade

Orides Fontela, a “santa da poesia”, finalmente tem seu legado reconhecido na Flip após anos de invisibilidade e luta contra o machismo.

A 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) celebra a obra de Orides Fontela (1940-1998), uma das vozes mais potentes da poesia brasileira do século XX. A escolha da curadora Rita Palmeira traz à tona a vida e a arte de uma escritora que dedicou sua existência à busca pela palavra exata, lapidando versos com uma densidade filosófica ímpar.

A poesia de Orides, marcada pela originalidade e pela capacidade de expressar reflexões profundas em poucos versos, permaneceu por décadas restrita a círculos acadêmicos. Apesar do reconhecimento de críticos e estudiosos, a autora viveu e morreu à margem do grande público, invisibilizada por uma sociedade que, segundo especialistas, ainda reproduz o machismo.

Quase três décadas após sua morte, a Flip oferece um palco para que o Brasil conheça a radicalidade de uma vida inteiramente dedicada à poesia. A obra de Orides, que venceu prêmios como o Jabuti e o APCA, é agora apresentada em sua totalidade, revelando uma artista que transformou o ofício da escrita em uma forma de existência, como aponta o pesquisador Gustavo de Castro, autor da biografia “O Enigma Orides”. Conforme divulgado pela Agência Brasil, Castro destaca que a Flip valoriza uma “mulher poeta, pobre e marginalizada”.

A Radicalidade de Uma Vida Dedicada à Poesia

Orides Fontela, natural de São João da Boa Vista, interior paulista, formou-se em filosofia e atuou como professora primária e bibliotecária. Sua trajetória, no entanto, foi moldada pela busca incessante pela perfeição poética. Gustavo de Castro define Orides como uma poeta que “pensa o livro enquanto produto artístico, o poema enquanto elaboração sensível, e a palavra enquanto sentimento”.

O pesquisador ressalta que, em vida, a narrativa sobre Orides muitas vezes a reduzia a uma figura folclórica, focando em seus conflitos pessoais em detrimento de sua produção literária. “Ela não teve reconhecimento de sua obra”, afirma Castro, explicando que a poeta era vista como “uma poeta universitária”, conhecida apenas por um círculo restrito.

Machismo e Pobreza: Barreiras à Visibilidade de Orides

O machismo estrutural na sociedade brasileira e, consequentemente, na literatura, é apontado por Gustavo de Castro como um dos fatores que contribuíram para a invisibilidade de Orides. “Ela foi vítima do machismo, que está na sociedade brasileira e por isso também está na literatura brasileira. E esse machismo continua”, lamenta o pesquisador.

O estereótipo atribuído a mulheres que desafiam as expectativas sociais sobre comportamento, relacionamentos e trabalho também afetou a percepção da obra de Orides. Castro defende que a poeta seja vista como uma artista que produziu poesia apesar das “situações extremas de pobreza” que enfrentou.

O Processo Criativo: Reescrita e a Busca Pela Palavra Cristalina

O processo de escrita de Orides Fontela era marcado pela reescrita constante. Ela anotava versos inspirados por leituras em folhas avulsas, guardava-as em pastinhas e, posteriormente, retrabalhava e reescrevia o material. “A poesia de Orides tem muito de reescritura, isso é uma marca”, explica Castro.

O biógrafo descreve que Orides não se prendia a horários fixos para escrever, buscando unir inspiração e transpiração. Ela captava a ideia poética e a trabalhava com calma, resultando em poemas que, segundo ele, são como “cristais”: a cada giro, revela-se uma nova perspectiva e um novo significado.

A “Santa da Poesia” e o “Coração Selvagem”

Gustavo de Castro compara Orides a uma “santa da poesia”, dada sua dedicação pura e intensa à palavra poética. “Só pensa poesia, vive poesia, respira poesia. A família da Orides, o pão da Orides, a vida da Orides eram a poesia”, relata o pesquisador.

Essa devoção radical, contudo, implicou em um “despedaçamento” de sua vida prática. Orides, segundo Castro, se esquecia de si mesma, vivendo em um estado “radical, selvagem”, a ponto de abdicar de relações em função de sua arte. Ela mesma se definia, em uma expressão citada por Castro, como “o próprio coração selvagem”, ecoando a força de Clarice Lispector em “Perto do Coração Selvagem”.

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