Domingo, 26 de Julho de 2026 às 08:35
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Mestra Fatinha Celebra 70 Anos e União do Jongo no Vale do Café com Encontro Histórico

70 Anos de Mestra Fatinha e a Força do Jongo Unem Comunidades no Vale do Café

O Vale do Café, no sul fluminense, se torna palco de uma celebração dupla neste fim de semana. Os 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a reverenciada Mestra Fatinha, se entrelaçam à comemoração do Dia Estadual do Jongo, com a realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café. O evento, que acontece no Parque das Ruínas de Pinheiral, promete reunir um número expressivo de participantes.

Serão aproximadamente 450 lideranças, vindas de 18 quilombos e comunidades tradicionais de jongo, abrangendo os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para a matriarca Mestra Fatinha, esta reunião é um momento crucial para reafirmar a rica cultura deixada pelos seus ancestrais, especialmente em um local com tanta carga histórica.

O Parque das Ruínas de Pinheiral, com suas áreas cedidas pela Prefeitura, abriga o Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf). Esta organização, fundada pelas próprias lideranças jongueiras locais, tem se dedicado a manter vivas as origens e tradições do jongo, conforme divulgado pelas fontes do evento.

Jongo: Resistência e Herança Ancestral em Pinheiral

A escolha do Parque das Ruínas não é aleatória. O local abriga vestígios da antiga fazenda São José dos Pinheiros, uma das maiores propriedades de café no período colonial, que empregou mais de três mil negros escravizados. “A gente herdou essa tradição deles, e a gente mantém. São vários núcleos de jongueiros de várias famílias”, explica Mestra Fatinha, destacando a continuidade dessa herança cultural.

Mestra Fatinha, com 50 anos dedicados à luta pela preservação da cultura negra na região do Vale do Café, enfatiza o papel fundamental do jongo. “O jongo é a verdadeira bandeira de luta do povo preto, porque os negros escravizados usavam o jongo para se organizar, namorar, cantar a saudade da África, para cultuar os orixás”, relata a matriarca.

Sua militância começou no final dos anos 80 e início dos 90, em um período de forte mobilização do movimento negro entre Rio e São Paulo. O Clube Palmares, em Volta Redonda, foi um marco inicial para sua atuação, sendo o único clube social de negros no estado do Rio.

A consciência sobre a identidade negra e a valorização da cultura sempre estiveram presentes em sua família. Mestra Fatinha menciona que seu bisavô participava do “corte de Moçambique”, seu pai era jongueiro e músico, e suas tias e avó também cantavam. Sua mãe, com 93 anos, ainda mantém a tradição viva.

Reconhecimento Acadêmico e Valorização da História Negra

O trabalho incansável de Mestra Fatinha na preservação da cultura negra tem sido reconhecido academicamente. No ano passado, a Universidade Federal Fluminense (UFF) concedeu a ela o título de notório saber, consolidando sua expertise, já demonstrada em mais de uma década de “Encontros de Saberes” na instituição.

A matriarca ressalta a importância de que os próprios negros contem suas histórias. “Isso é muito importante, principalmente, para as crianças e adolescentes, por sermos essa referência e eles valorizarem a luta dos que vieram antes de nós”, afirma.

Ela contrapõe a narrativa histórica predominante no Vale do Café, que muitas vezes foca nos “barões” do café. “A gente vem fazendo a contramão contando a história do povo preto, porque o nosso povo é que construiu todo esse império”, completa, ressaltando a contribuição fundamental dos negros para a prosperidade da região.

Certificação Quilombola e o Futuro do Jongo do Pinheiral

Graças ao trabalho cultural realizado pelo Jongo do Pinheiral, a região obteve, no ano passado, a certificação como comunidade quilombola pela Fundação Palmares. O próximo passo é dar andamento ao processo no Incra para a delimitação oficial da área.

“É uma área histórica que vai dar mais visibilidade à nossa cultura e para a gente poder desenvolver com mais autenticidade tudo que a gente já faz”, declara Mestra Fatinha, vislumbrando um futuro com mais reconhecimento e autonomia para as práticas culturais.

O Jongo, também conhecido como congo ou caxambu, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan em 2005. Essa manifestação cultural, com raízes em povos Bantu da África, como Congo, Angola e Moçambique, foi trazida para o Brasil e se desenvolveu nas lavouras de café e cana-de-açúcar. Após a abolição, o jongo desceu as serras e chegou aos morros cariocas, influenciando a fundação de futuras escolas de samba.

Agenda Cultural e Celebração Religiosa

O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café é uma realização conjunta de diversas entidades, incluindo o Jongo de Pinheiral, a Rede de Jongo do Vale do Café, o Instituto Floresta, a Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e o CREASF. Conta com o apoio da prefeitura de Pinheiral, dos ministérios da Igualdade Racial e da Justiça, do Pronasci e do Museu Vassouras.

A programação continua neste domingo (26), dia em que se comemora o Dia de Sant’Ana e o Dia Estadual do Jongo. Haverá uma procissão em homenagem à santa, sincretizada como Nanã nas religiões de matriz afro-brasileira, seguida de ladainhas. A tradicional procissão, com mais de 100 anos, terá início às 18h, na Casa do Jongo de Pinheiral.

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