Domingo, 26 de Julho de 2026 às 08:06
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Nathacha Appanah, Destaque Internacional da Flip 2024, Expõe Violência Doméstica e Migração em Sua Obra

Festa Literária de Paraty Celebra Diversidade com Nathacha Appanah

A 24ª edição da Festa Literária de Paraty (Flip) se destaca pela busca em ampliar a diversidade geográfica e cultural de seus convidados, reunindo escritores de diferentes países e trajetórias. Entre os nomes de relevo internacional, figura a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah, que apresentou sua obra mais recente, um mergulho profundo nos destinos de três mulheres submetidas à violência doméstica.

Appanah participou de uma mesa no programa principal da Flip nesta sexta-feira (24), onde compartilhou reflexões sobre sua obra. Sua escrita é marcada pela investigação das violências íntimas e sociais, e ela define “Noite no Coração” (Bazar do Tempo), livro traduzido para mais de 15 países, como uma tentativa de romper o silêncio.

As personagens do livro, segundo a autora, têm origem em histórias reais, sendo que uma delas é a própria Nathacha Appanah. As outras duas mulheres retratadas foram vítimas fatais de seus companheiros. Conforme informação divulgada pela Flip, a escritora relatou que a obra não se limita a um relato, mas também incorpora elementos de romance e profunda reflexão.

“Noite no Coração”: Um Rompimento de Silêncios e Contrações de Tempo

“Tudo isso estava contido neste livro e que sobretudo havia nele a tentativa de uma escritora de colocar adiante a linguagem e sua própria condição”, disse Appanah durante o evento. Ela revelou que, ao iniciar a produção da obra há mais de cinco anos, tinha a consciência de que o livro seria, primeiramente, uma exploração sobre o tempo.

“Eu tinha a impressão de que a única coisa que eu poderia fazer como objetivo literário seria contrair o tempo, fazer com que três mulheres que jamais se encontraram ou conheceram existissem no mesmo local, trazer essas três existências para dentro do livro”, explicou a autora.

Migração e a Multilinguagem na Obra de Appanah

Nascida nas Ilhas Maurício, de família de imigrantes indianos e radicada na França, Nathacha Appanah explicou como os conceitos de deslocamento e migração moldam sua vida e, consequentemente, sua escrita. Ela ressaltou a importância de entender que nenhuma língua é superior a outra.

“O que eu aprendi antes dos deslocamentos, antes do que é deslocamento, é que nenhuma língua é superior às outras. Havia a língua do coração, da intimidade, da escola. Havia a língua que nós falamos com um vizinho específico, uma língua de sedução”, compartilhou.

A escritora descreveu sua casa de infância como um lugar onde todas essas línguas coexistiam, criando uma forma única de existência. “As Ilhas Maurício ficam muito longe de tudo, e nessa casa estranha – eu digo estranha, mas era muito bela – eu tinha a impressão de ter o mundo ao meu alcance”, concluiu.

Heranças Familiares e a Conexão entre Passado e Modernidade

Appanah mencionou a convivência com seus pais e avós, cujas gerações apresentavam diferenças significativas que marcaram sua experiência. Seus avós, nascidos e criados em uma plantação de cana-de-açúcar durante a era colonial, falavam uma língua indiana, que é a língua materna da autora.

“E, ao lado dos meus pais, que eram pessoas instruídas, que frequentavam a escola, que trabalhavam, eu tinha a impressão de viver como num fio que se estendia entre um passado que eu jamais havia conhecido, mas cujas histórias chegavam até mim porque minha avó contava muitas coisas, ela me falava em várias línguas. Por outro lado, havia meus pais que viviam numa modernidade voltada para o exterior, para fora”, acrescentou.

Paralelo com a Escrita Brasileira sobre Violência de Gênero

Na mesma mesa da Flip, estava a escritora brasileira Bethânia Pires Amaro, autora de “Ressalva” (Record). O livro de Amaro também aborda a violência de gênero, narrando a história de três gerações de mulheres na Bahia.

Amaro explicou que o realismo mágico é uma ferramenta utilizada para abordar a vida de suas personagens. “O realismo mágico acaba trazendo um olhar muito rico e muito particular que permite uma aproximação um pouco mais indireta. E que vai brincar um pouco também com essa imaginação do leitor, vai mostrar, por exemplo, essas mulheres não reduzidas àquelas violências, mas como seres que realmente estão florescendo”, disse.

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