Fitópolis: A Revolução Verde nas Cidades que o Brasil Precisa para Combater a Crise Climática e Reviver a Natureza
Grandes centros urbanos não podem mais ignorar a importância das florestas. A ideia de integrar a natureza ao planejamento das cidades, conhecida como fitópolis, é uma concepção resgatada por pesquisadores e ativistas. Essa proposta, que remonta a civilizações antigas na Amazônia, busca uma transformação radical na forma como concebemos os ambientes urbanos.
O conceito de fitópolis foi apresentado pelo renomado escritor e pesquisador italiano Stefano Mancuso, referência mundial em inteligência vegetal. Ele participou do Seminário Internacional Transmutar, promovido pelo Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), e defende que as cidades sejam vistas como organismos vivos, dotados de inteligência, resiliência e capacidade de adaptação.
Essa abordagem é vista como uma estratégia concreta para enfrentar a crise climática e reduzir o distanciamento histórico entre humanos e o mundo natural. Mancuso argumenta que a verdadeira evolução urbana não se limita a soluções arquitetônicas focadas no bem-estar humano, mas sim na construção de uma interação mais fluida e orgânica com a natureza, reconhecendo o ser humano como parte de um ecossistema mais amplo. Conforme informação divulgada pelo Instituto Inhotim, essa visão foi apresentada durante o seminário.
A Inteligência das Plantas e o Futuro Urbano
Stefano Mancuso, neurobiólogo e fundador do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal da Universidade de Florença, destaca a complexidade e sofisticação dos sistemas vegetais. Ele acredita que, ao reconhecer as plantas como seres inteligentes, podemos mudar nossa atitude em relação a elas. As fitópolis surgem como uma resposta crucial às mudanças climáticas, especialmente considerando que 70% da população mundial reside em cidades.
A substituição de 20% do asfalto por áreas arborizadas, por exemplo, já traria melhorias significativas na qualidade de vida urbana. Mancuso sugere que a presença de plantas não se limite a espaços externos, mas que elas também sejam incorporadas ao interior dos edifícios. Uma fitópolis ideal, segundo sua avaliação, apresentaria uma cobertura vegetal de pelo menos 60%, além de um sistema de transporte público eficiente e a eliminação de veículos movidos a combustão.
Lições do Urbanismo Amazônico Ancestral
Eduardo Gôes Neves, arqueólogo e antropólogo, trouxe à tona exemplos de urbanismo indígena na Amazônia com mais de 2.500 anos. Ele explicou que essas antigas cidades amazônicas não excluíam a natureza, diferentemente de metrópoles atuais como São Paulo, onde rios foram transformados em depósitos de lixo. A natureza, em sua visão, foi severamente excluída dos espaços urbanos.
Neves ressalta que os bairros mais arborizados tendem a ser mais prósperos, enquanto o urbanismo moderno muitas vezes negligencia as populações mais vulneráveis. Ele defende o retorno à ideia de cidades-jardim, inspiradas nos antigos assentamentos amazônicos, que eram entrelaçados com áreas de bosque. A proposta é clara: **trazer a floresta de volta para as cidades**.
Transfluência e o Novo Paradigma de Convivência
O tema do Seminário Internacional Transmutar, “Transfluências”, inspirado no pensamento do quilombola Antônnio Bispo dos Santos (Nêgo Bispo), reforça a ideia de que todo pensamento e ação humana, assim como a dos não humanos, é circular. Alitah Mariah, diretora de Natureza, Operações e Infraestrutura do Inhotim, explicou que a transfluência representa um movimento e encontro que ultrapassa barreiras, sendo essencial para repensar nossos modos de vida e a relação com a natureza.
Joana Maria, filha de Nêgo Bispo, complementa que a natureza deve ser vista como um lugar de afeto e cuidado. A líder quilombola enfatiza a importância de rios limpos para o bem-estar e a subsistência. A gestora cultural colombiana Ana Ochoa Acosta acrescenta que a natureza também engloba o que produzimos com a tecnologia, e que a sabedoria reside em **conviver com essa complexidade**, sem a pretensão de retornar a um paraíso arcaico.
Re-encantamento e a Necessidade de Mudança Lógica
Sue Anne Costa, bióloga do Museu Emílio Goeldi, propõe o conceito de “re-encantamento” para auxiliar na tomada de decisões. Ela argumenta que os povos ancestrais possuíam um encantamento com o território e o sagrado, algo que se perdeu nas lógicas atuais, focadas predominantemente em aspectos produtivos e financeiros. Para Costa, **essa lógica precisa mudar**, abrindo espaço para uma nova perspectiva de desenvolvimento.
O Instituto Inhotim, além de ser um acervo de arte, funciona como um jardim botânico que conserva mais de 1.000 espécies de plantas, regenera florestas nativas e protege a fauna. Com 140 hectares, a instituição já regenerou 75 hectares de floresta nativa e armazena cerca de 34.215 toneladas de carbono, um esforço significativo para a conservação da biodiversidade brasileira.
