Dívidas em Alta e Inadimplência em Queda: Um Contraste no Bolso do Brasileiro
O cenário financeiro das famílias brasileiras em janeiro apresentou um paradoxo: o percentual de lares com dívidas, como cartão de crédito e financiamentos, atingiu o maior patamar já registrado, igualando o recorde de outubro passado. No entanto, um alívio pontual surge com a queda, pelo terceiro mês consecutivo, no número de famílias que não conseguiram honrar seus compromissos financeiros no prazo estabelecido.
Essa pesquisa, divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), lança luz sobre os desafios e as pequenas vitórias no cotidiano de milhões de brasileiros. A análise detalhada dos dados revela um perfil de endividamento que se concentra mais em famílias de menor renda e aponta os principais tipos de dívidas que pesam no orçamento familiar.
Com a taxa Selic ainda em patamares elevados, o custo do crédito se mantém alto, dificultando a quitação de débitos e pressionando o orçamento. Entender as nuances desse cenário é fundamental para que os consumidores possam tomar decisões financeiras mais conscientes e planejar o futuro, conforme informação divulgada pela CNC.
O Perfil do Endividamento Familiar Brasileiro
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela CNC, aponta que em janeiro deste ano, 79,5% das famílias brasileiras possuíam alguma forma de dívida. Este índice iguala o recorde anterior, registrado em outubro do ano passado, e representa um aumento em relação aos 78,9% de dezembro e aos 76,1% de janeiro de 2025. O endividamento é mais acentuado entre os lares com renda de até três salários mínimos, alcançando 82,5% dessas famílias, enquanto para aqueles com renda superior a dez salários mínimos, o indicador é de 68,3%.
Cartão de Crédito Lidera a Lista de Dívidas
A forma mais comum de endividamento entre as famílias brasileiras é o cartão de crédito, presente em 85,4% dos casos. Em seguida, aparecem os carnês (15,9%), o crédito pessoal (12,2%), financiamento de casa (9,6%) e financiamento de carro (8,7%). Outras modalidades como crédito consignado, cheque especial, cheque pré-datado e outras dívidas também compõem o quadro de compromissos financeiros dos consumidores. O comprometimento médio com as dívidas é de 7,2 meses, com a parcela da renda familiar destinada a esses pagamentos atingindo, em média, 29,7% do orçamento.
Inadimplência em Declínio, Mas Ainda Preocupante
Apesar do aumento no percentual de famílias endividadas, a inadimplência, que mede a dificuldade em pagar as dívidas em dia, apresentou uma tendência de queda. Em janeiro, o índice foi de 29,3%, marcando o terceiro mês consecutivo de recuo. Em dezembro, o percentual era de 30,5%. Essa redução é mais perceptível entre as famílias com rendas mais altas. Contudo, 12,7% das famílias informaram que não terão condições de pagar suas dívidas atrasadas, e o tempo médio de atraso foi de 64,8 dias.
Juros Altos e o Impacto no Orçamento Familiar
A Confederação Nacional do Comércio ressalta que, embora o endividamento possa impulsionar o consumo e a economia, ele se torna um problema quando as famílias enfrentam dificuldades para honrar seus pagamentos. Os juros altos, como a taxa Selic em 15% ao ano, dificultam a amortização das dívidas e apertam o orçamento familiar. A Selic elevada, utilizada como ferramenta de combate à inflação, encarece o crédito e desestimula investimentos e consumo, podendo impactar a geração de empregos.
Projeções para o Futuro Próximo
A CNC projeta que o endividamento das famílias deve continuar em alta, possivelmente atingindo 80,4% em junho. Por outro lado, a inadimplência tem expectativa de queda, chegando a 28,9% no mesmo período. A queda na taxa Selic, prevista a partir de março, pode contribuir para essa melhora no cenário de inadimplência, tornando o crédito mais acessível e aliviando a pressão sobre o orçamento das famílias, segundo avalia o economista-chefe da CNC.
