Domingo, 12 de Julho de 2026 às 19:17
ADVERTISEMENT

Escolas sob holofote: O papel crucial das instituições de ensino no combate à violência contra meninas e adolescentes

O papel das escolas no combate à violência contra meninas: um alerta urgente

A recente divulgação de uma lista com cunho sexual, expondo e constrangendo alunas de uma renomada escola no Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre a participação das instituições de ensino no enfrentamento à violência entre adolescentes. O caso, que ganhou grande repercussão, evidenciou a urgência de discussões mais profundas sobre o tema.

Especialistas ouvidos pela Agência Brasil ressaltam que a escola, além de ser um espaço de aprendizado acadêmico, desempenha um papel fundamental na formação social e ética dos estudantes. A situação levanta questões sobre como as escolas podem e devem agir diante de atos de violência e assédio cometidos por seus alunos.

A atuação das escolas em casos de violência entre estudantes, especialmente contra meninas, é um tema complexo que exige abordagens multifacetadas. Conforme informações divulgadas pela Agência Brasil, a discussão envolve desde a prevenção e conscientização até o acolhimento das vítimas e a notificação às autoridades competentes.

A escola como espaço de aprendizado e prevenção

Segundo Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, a escola é um ambiente propício para a aprendizagem contínua sobre convivência social. Ela defende que situações como a ocorrida devem ser tratadas como oportunidades para um trabalho sistemático e constante de conscientização.

“Uma situação como essa tem muitas camadas e essas camadas devem ser trabalhadas como prevenção, de uma maneira muito mais sistematizada e contínua”, afirma Vinha. A especialista enfatiza que os conflitos e violências dentro do ambiente escolar podem se tornar ferramentas valiosas para ensinar os alunos a viver em sociedade.

O dever legal e pedagógico das instituições de ensino

Denise Carreira, professora da Faculdade de Educação da USP, destaca que, além do papel pedagógico, a escola tem a responsabilidade legal de acionar os órgãos competentes em casos de atos infracionais cometidos por menores de 18 anos. Ela explica que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê essa atuação.

“O papel prioritário da escola é pedagógico, mas a nossa legislação, o ECA, coloca a importância da escola identificar as situações, acolher as vítimas e notificar também o conselho tutelar e a rede de proteção para justamente buscar formas de atuação nessas situações”, explica Carreira. Ela reforça que o ECA reconhece os adolescentes como sujeitos de atos infracionais.

Acolhimento à vítima e diálogo com agressores

Na abordagem a casos de violência, Telma Vinha sugere que o foco principal da escola deve ser o bem-estar da vítima. A minimização ou justificativa da violência não são aceitáveis, mas é preciso trabalhar a compreensão da gravidade e dos impactos dessas ações.

É fundamental uma escuta cuidadosa e empática das vítimas, garantindo que elas não se sintam responsáveis pelo ocorrido e que terão o apoio da escola e da família. “Tem que ser aquela escuta cuidadosa no sentido que deixa muito claro que ela não tem responsabilidade nisso. Deixa muito claro que a escola, que a família vai protegê-la de novas exposições”, orienta Vinha.

A especialista alerta para que essa escuta não se transforme em um interrogatório ou em mera manifestação de curiosidade. A forma como a vítima é ouvida pode, inclusive, direcionar os próximos passos da escola em relação aos autores da violência. Para estes, uma conversa individual é recomendada, considerando que o comportamento em grupo muitas vezes é um fator determinante.

“A nossa questão é o que os envolvidos têm que aprender sobre isso”, reflete Vinha. Ela sugere trabalhar com os autores formas de restauração, buscando que compreendam a gravidade de seus atos e adquiram conhecimentos para evitar reincidências.

Educação para a igualdade de gênero e o fim da violência

Denise Carreira enfatiza a importância de as escolas promoverem discussões sobre assimetrias de gênero, um passo crucial no combate à violência contra meninas, mulheres e a população LGBTQIA+. Ela acredita que sem essa conversa séria nas escolas, o avanço no enfrentamento à violência é inviável.

Um ponto central, segundo Carreira, é discutir as masculinidades. O objetivo é que os próprios meninos desenvolvam uma compreensão mais igualitária de seu papel na sociedade e construam relações mais justas. Ela descreve a “masculinidade tóxica ou hegemônica” como aquela que leva ao sofrimento e está ancorada na dominação e na desqualificação do feminino.

“Nós precisamos conseguir desmontar e conversar sobre isso nas escolas por meio de rodas de conversa, por meio de projetos, atuando na formação também dos profissionais de educação. Isso é fundamental pra gente inclusive enfrentar o feminicídio”, defende Carreira. Ela foi relatora do GT que elaborou a proposta de Política Nacional de Educação para a Igualdade de Gênero.

Carreira também relembra que a Lei Maria da Penha estabelece a responsabilidade das escolas em debater gênero e raça para enfrentar a violência contra meninas e mulheres. A lei foi ampliada para abranger a agenda LGBTQIA+, e o silenciamento sobre esses temas prejudica a vida de todos, incluindo meninos que sofrem por não se encaixarem na “masculinidade hegemônica”.

A resposta do Colégio Cruzeiro

Em nota, o Colégio Cruzeiro declarou que o bem-estar e a segurança dos alunos são prioridades absolutas e que repudia qualquer atitude de exposição que os afete. A escola informou que, ao tomar conhecimento dos fatos, acionou as autoridades, solicitou a remoção do conteúdo da plataforma e ofereceu apoio integral às alunas e suas famílias.

A instituição ressaltou que o papel da escola vai além do ensino acadêmico, incluindo a formação integral do ser humano e a responsabilidade digital. “Por isso, oferecemos constantemente a nossos 3 mil alunos, campanhas de conscientização com palestras de juízes, psicólogos, especialistas em tecnologia, delegados, entre outros”, afirmou a escola.

O Colégio Cruzeiro concluiu sua nota reforçando sua tradição de 164 anos em formar gerações pautadas pelo respeito e desenvolvimento humano integral, e que permanece atenta às medidas pedagógicas para a preservação do ambiente formativo.

Menu