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Ebola Avança na África: Guerras no Congo e Menos Ajuda Internacional Criam Tempestade Perfeita para Novo Surto

Guerras e cortes na ajuda internacional agravam surto de Ebola na África, dificultando o combate e o acesso a áreas afetadas.

A República Democrática do Congo (RDC) e Uganda enfrentam um complexo surto de Ebola, cujas raízes estão profundamente entrelaçadas com décadas de guerras civis e uma preocupante diminuição da cooperação internacional na área da saúde. A instabilidade política e a escassez de profissionais qualificados na região criam um ambiente fértil para a disseminação do vírus, alertam organizações de saúde.

O epicentro da crise atual encontra-se na província de Ituri, no nordeste da RDC, responsável por uma vasta maioria dos casos confirmados. A região, palco de disputas entre cerca de 100 grupos paramilitares que buscam controlar as ricas atividades minerais do país, abriga milhões de deslocados, tornando o rastreamento e o controle do vírus um desafio monumental.

Essa conjuntura humanitária complexa e marcada por conflitos, com populações em constante movimento, é descrita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fator crucial na rápida evolução do surto. A dificuldade de acesso a áreas controladas por grupos hostis e a redução no financiamento internacional para a saúde pública, incluindo a saída dos Estados Unidos da OMS, são apontados como agravantes significativos, conforme divulgado pela Agência Brasil.

A Complexa Teia de Conflitos e Interesses na RDC

O atual surto de Ebola emerge em uma região historicamente marginalizada da RDC, sob forte influência de Ruanda, que, segundo o professor Nuno Carlos de Fragoso Vidal da UFRJ, financia grupos paramilitares como o M23. Ele descreve a área como uma “terra de ninguém”, onde grupos armados exploram recursos naturais, como o coltan, exportando-os através de Ruanda. Essa dinâmica de conflito latente, que já causou dezenas de milhares de mortos, dificulta a atuação das equipes de saúde.

Redução da Cooperação Internacional e Seus Impactos

A diminuição da cooperação internacional em saúde é outro fator crítico. A saída dos Estados Unidos da OMS, anteriormente o maior doador, e a drástica redução na ajuda internacional americana para a RDC – de US$ 1,41 bilhão em 2024 para US$ 0,14 bilhão em 2026 – criam incertezas. Essa política de redução da ajuda, parte da agenda de Donald Trump, impacta diretamente a capacidade de resposta a emergências sanitárias globais.

O presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Rômulo Paes de Sousa, critica a estratégia americana de enfraquecer organizações multilaterais em favor de acordos bilaterais. Ele aponta que a cooperação internacional se tornou mais suscetível a interesses comerciais, especialmente em relação a terras raras, o que dificulta o monitoramento e a aplicação transparente de recursos, segundo Natalia Fingermann, coordenadora do Nenaf da ESPM.

Aumento dos Gastos com Defesa em Detrimento da Saúde Global

Um fator adicional que agrava a situação é o aumento dos gastos com defesa por potências europeias, como Reino Unido e França, em detrimento da ajuda internacional. A União Europeia e outros países concordaram em elevar seus gastos militares, pressionados pelos EUA. Essa mudança de prioridade, que resultou em um aumento de 20% nos gastos com defesa em 2025 comparado a 2024, segundo o Relatório Anual da OTAN, ocorre enquanto a UE anunciou apenas €15 milhões em assistência humanitária adicional para o CDC da África.

Escassez de Profissionais e Falta de Interesse Internacional

A União Africana e a OMS lançaram um plano de contenção solicitando US$ 517 milhões para os próximos seis meses, mas enfrentam a escassez de profissionais essenciais, como epidemiologistas e clínicos. O professor Nuno Vidal ressalta que surtos de Ebola na África não despertam o mesmo nível de interesse internacional que poderiam causar se ocorressem em outras regiões, o que dificulta a mobilização de recursos e atenção globais.

Até 10 de junho, a OMS registrou 676 casos confirmados e 136 mortes na RDC. Em Uganda, até 11 de junho, foram 19 casos confirmados e dois óbitos, com a OMS indicando a ausência de novos casos nos últimos seis dias no país vizinho. A falta de insumos para testes em laboratórios congoleses, relatada na semana passada, sublinha a urgência da situação.

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