Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026 às 07:38
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Comissão da Verdade Indígena: Câmara debate criação da CNIV para apurar crimes da ditadura contra povos originários

Criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade será debatida em audiência na Câmara dos Deputados

Uma demanda histórica dos povos originários, a criação da Comissão Nacional Indígena da Verdade (CNIV), ganha força com uma audiência pública agendada para 17 de novembro na Câmara dos Deputados. A iniciativa é da ex-ministra e deputada federal Sônia Guajajara (PSOL-SP), que busca impulsionar a proposta.

A audiência, aprovada pelo Requerimento nº 86/2026 da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais, tem como objetivo principal coletar mais elementos que comprovem as ações de despotismo e violência contra indígenas durante a ditadura militar. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) tem sido uma das principais vozes a reiterar a necessidade da CNIV.

A criação da CNIV visa responsabilizar o Estado brasileiro pelas inúmeras violações de direitos humanos perpetradas contra os povos indígenas. Estes crimes incluíram escravização, estupros, envenenamentos, torturas, remoções forçadas de seus territórios, desaparecimentos, prisões ilegais e a destruição de bens culturais. Conforme informações divulgadas, a audiência contará com a presença de lideranças indígenas, representantes do poder público, do sistema de justiça, da sociedade civil e pesquisadores.

Objetivo é ampliar o registro de violências e garantir reparação

O encontro servirá para apresentar contribuições e ampliar a documentação já existente, inclusive a produzida pela Comissão Nacional da Verdade (CNV). Apesar de reconhecida pelo movimento indígena, a CNV foi considerada insuficiente por detalhar impactos na vida de apenas dez povos. O levantamento da CNV estimou cerca de 8.350 indígenas assassinados entre 1964 e 1985, um número que representa uma fração do total de povos identificados na época.

Relatório da CNV foi criticado pela falta de profundidade

O jornalista Marcelo Zelic, falecido em maio de 2023, foi um dos críticos mais atuantes da versão final do relatório da CNV. Ele integrava o Grupo de Trabalho (GT) Indígena da CNV e questionou a profundidade com que os crimes contra os povos indígenas foram abordados. Zelic apontou que a primeira versão do relatório, com apenas 35 páginas, era insuficiente para documentar a extensão das violências ocorridas durante os 21 anos de ditadura.

Após protestos do GT e manifestações de descontentamento de Zelic, o material foi revisado. Em seu texto “Comissão Nacional da Verdade e Povos Indígenas: a um passo da omissão”, ele expressou indignação com a síntese, considerando-a curta demais. Zelic argumentou que o Estado brasileiro facilitou a prática de violências, muitas vezes perpetradas por funcionários do extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI) e da Funai.

Proposta de Zelic para uma estrutura de apuração mais robusta

Marcelo Zelic sugeriu a criação de uma coordenação-geral e uma equipe técnica para auxiliar nos trabalhos da CNIV, além de um colegiado composto por representantes do Estado, dos povos indígenas e de entidades da sociedade civil. Essa estrutura visaria a estruturação de uma Rede de Comissões da Verdade Indígena (Rede CVI), para que casos concluídos pela rede fossem encaminhados para abertura de processos.

O jornalista também defendeu o estímulo à criação de comissões próprias pelos povos originários e por universidades, a fim de colaborar com os levantamentos. A mensuração dos impactos territoriais, sociais, culturais e espirituais na vida das comunidades era outra finalidade importante para Zelic.

Sônia Guajajara reforça a necessidade de memória, verdade e reparação

A deputada Sônia Guajajara enfatizou a importância da CNIV para a construção de uma democracia sólida. “Não podemos construir uma democracia verdadeira sem reconhecer as violências cometidas contra os povos indígenas. Precisamos garantir o direito à memória e à verdade, identificar responsabilidades e construir políticas de reparação integral para que essas violações nunca mais se repitam”, declarou a parlamentar.

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