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Carnaval Inclusivo em Brasília: Bloco “Deficiente é a Mãe” Combate o Capacitismo e Celebra a Diversidade em Folia Acessível

Acessibilidade no Carnaval: Um Direito, Não um Favor

O carnaval, tradicionalmente uma festa de grande aglomeração, muitas vezes apresenta barreiras significativas para pessoas com deficiência (PCD). A falta de rampas, pisos táteis, transporte público acessível e intérpretes de Libras são apenas alguns dos desafios enfrentados. Esses obstáculos limitam a circulação e a permanência de PCDs em eventos carnavalescos, negando-lhes o direito de participar plenamente da celebração.

Entendendo que acessibilidade é um direito fundamental e não um favor, o bloco de carnaval “Deficiente é a Mãe” nasceu em Brasília há 14 anos. Fundado pela historiadora Lurdinha Danezy Piantino, juntamente com pais e representantes de entidades PCD, o bloco tem como missão combater o capacitismo, que é a discriminação e opressão baseada na crença de que pessoas com deficiência são inferiores ou menos capazes.

“A pessoa com deficiência tem que ocupar todos os espaços: sociais e culturais. E o momento cultural mais importante do ano é o carnaval. Então, a pessoa com deficiência tem que estar junto”, afirma Lurdinha, ressaltando a importância da presença de PCDs em todos os âmbitos da sociedade, especialmente em celebrações culturais de grande relevância como o carnaval.

A Força da Inclusão e a Luta Contra o Preconceito

Lurdinha Danezy Piantino é mãe de Lúcio Piantino, um artista multifacetado de 30 anos que brilha como Úrsula Up, a primeira Drag Queen com síndrome de Down do Brasil e uma voz ativa na causa LGBTQIA+. Lúcio, que além de sua persona drag, é ator, artista plástico, dançarino e palhaço, acredita fervorosamente no poder dos blocos de carnaval como ferramentas de inclusão.

“Sinto-me ótimo. É a vida, que é muito boa”, declara Lúcio sobre sua participação na folia, evidenciando a alegria e o sentimento de pertencimento que o carnaval acessível proporciona. Sua presença e a de outros artistas com deficiência no bloco são um testemunho poderoso de que a festa é para todos.

Luiz Maurício Santos, 60 anos, servidor público aposentado e cadeirante há 28 anos devido a um acidente de moto, é outro fundador essencial do bloco. Ele relata as dificuldades enfrentadas para organizar o evento, como a burocracia e a necessidade de recursos, mas destaca que o resultado compensa o esforço. “Temos ainda a dificuldade de mobilizar o segmento. As pessoas ainda ficam um pouco receosas de participar, de sofrer alguma discriminação. Então, sempre tentamos mobilizar essa turma para que apareçam”, comenta Luiz Maurício.

Histórias de Participação e Conscientização Social

Francisco Boing Marinucci, 22 anos, com Transtorno do Espectro Autista (TEA), é um frequentador assíduo do bloco. Sua mãe, a professora Raquel Boing Marinucci, o acompanha, pois Francisco adora música, conhece marchinhas de carnaval e diversos sambas. Para ele, a companhia da mãe durante os quatro dias de folia é essencial e demonstra o afeto que sentem um pelo outro: “A mãe me adora, me ama de paixão. A mãe é minha companhia.”

Raquel enfatiza a importância do bloco como um espaço inclusivo e seguro para ambos. Ela observa que, embora crianças com deficiência intelectual encontrem mais compreensão, a inclusão para jovens e adultos com essa condição ainda é limitada em ambientes gerais. “Por isso, não é possível deixá-lo sair sozinho em um ambiente sem um cuidador contratado ou alguém da família”, explica a professora.

O Brasil abriga cerca de 18,6 milhões de pessoas com deficiência, representando 8,9% da população com 2 anos ou mais, segundo o IBGE. A deficiência visual é a mais prevalente, afetando aproximadamente 3,1% da população. Thiago Vieira, auxiliar de biblioteca com baixa visão desde o nascimento, encontra segurança e alegria no bloco, acompanhado por sua cão-guia Nina.

“No ano inteiro, a gente é bastante esquecido. Este bloco é um começo, me sinto seguro aqui. Quem sabe a sociedade se conscientiza para abrir mais lugares acessíveis para a gente?”, deseja Thiago, expressando a esperança de que o bloco inspire uma maior conscientização social e a criação de mais espaços acessíveis.

Otimismo e Esperança por Avanços Científicos

Carlos Augusto Lopes de Sousa, 51 anos, que trabalha em um centro de ensino e tem paralisia causada por uma fratura na coluna após um desabamento há 37 anos, frequenta o bloco em sua cadeira de rodas. Para ele, o evento representa “inclusão e respeito”. Ele demonstra otimismo com os avanços científicos, mencionando as pesquisas da professora doutora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, sobre um medicamento promissor para regeneração de lesões medulares. “Ela é incrível! Heroína nacional”, celebra Carlos Augusto, aguardando a autorização da Anvisa para que os estudos clínicos avancem.

O bloco “Deficiente é a Mãe” não é apenas uma manifestação cultural, mas um símbolo de resistência e um chamado à ação para a construção de uma sociedade verdadeiramente inclusiva, onde a alegria do carnaval seja acessível a todos, sem exceção.

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