O Pasquim Ganha Acervo Digital Completo das Edições Regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul na Biblioteca Nacional
Em meio a um cenário político e social efervescente, que incluía a abertura política, o lançamento do Plano Cruzado e o fim da fabricação do Fusca, o ano de 1986 marcou a chegada de edições regionais do jornal O Pasquim em São Paulo e no Rio Grande do Sul. O periódico, que já se destacava no Rio de Janeiro pela sua linha editorial irreverente e crítica durante a ditadura militar, buscou dialogar com o público desses dois estados por um período.
Agora, para celebrar a memória e a importância histórica desse jornal, as 114 edições regionais de O Pasquim foram digitalizadas e disponibilizadas na Biblioteca Nacional Digital. Este acervo se soma às 1.072 edições cariocas já existentes, oferecendo um panorama completo da publicação.
A iniciativa de expandir O Pasquim para outros estados partiu de jornalistas admiradores do veículo, que buscavam preservar seu legado. Conforme informações divulgadas, em São Paulo, o projeto foi liderado por Paulo Markun, com apoio de Manoel Canabarro e Dante Matiussi. No Rio Grande do Sul, Flávio Braga foi o responsável por convencer o cartunista Jaguar, então diretor de O Pasquim, a autorizar a criação de uma sucursal gaúcha.
O Legado Irreverente e Transgressor de O Pasquim
Flávio Braga destaca que, embora muitas pessoas conheçam a importância de O Pasquim, poucas compreendem a dimensão do seu impacto para uma geração. Ele exalta o caráter transgressor do jornal, presente em artigos e entrevistas de nomes como Millôr Fernandes, Tarso de Castro, Sergio Cabral, Ruy Castro e Paulo Francis, além das icônicas charges e caricaturas de Jaguar, Henfil e Ziraldo. Tudo isso, marcado por palavrões, sátiras políticas e contracultura, e o mais impressionante, em plena ditadura militar.
Pautas Locais com o Mesmo Tom Crítico e Divertido
Uma das características marcantes das edições regionais de O Pasquim era a adaptação das pautas ao contexto local, embora ocasionalmente utilizassem material da matriz carioca. No Sul, o jornal abordou, com tom satírico, o perfil do “macho sulino”, gerando debates e confrontos, como relembra Flávio. Em São Paulo, o periódico refletiu a “efervescência política” pós-ditadura, segundo Markun.
As edições regionais também exploraram aspectos comportamentais da contracultura, como a liberdade sexual e o uso recreativo de drogas. As sátiras políticas, um dos pilares do sucesso de O Pasquim, encontraram em figuras como Paulo Maluf, então governador de São Paulo, um alvo frequente. Os colaboradores paulistas, em sua maioria, não apoiavam Maluf, com diferentes preferências políticas entre Eduardo Suplicy, Orestes Quercia e até o empresário Antônio Ermírio de Moraes.
Valorização de Talentos Locais e Desafios de Sobrevivência
O Pasquim regional também se destacou por dar espaço a cartunistas e jornalistas locais. Em São Paulo, nomes como Marangoni, Laerte, Jô Soares, Augusto Nunes e Alberto Dines foram importantes. No Rio Grande do Sul, Edgard Vasquez, Santiago e Canini, entre outros, foram essenciais para a publicação, conforme Flávio Braga.
A sobrevivência financeira, no entanto, foi um desafio. O Pasquim em São Paulo e no Rio Grande do Sul durou pouco mais de um ano. No Sul, a publicação contou com parcerias e anunciantes como a Varig. Em São Paulo, a venda avulsa era razoável, mas os anunciantes eram poucos, muitos ainda receosos devido ao passado irreverente do jornal. Markun aponta que, em seu auge durante a ditadura, O Pasquim vendia impressionantes 200 mil exemplares, impulsionado pela venda avulsa, não apenas por anúncios.
A falta de clareza sobre o papel de um jornal alternativo após o fim da ditadura também dificultou a permanência das edições regionais. Com a imprensa tradicional abrindo espaço para debates antes proibidos, restava uma “franja muito reduzida” para jornais como O Pasquim operarem.
A Digitalização Colaborativa e o Acesso ao Acervo
Recentemente, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) manteve uma decisão que obriga uma produtora cultural a devolver R$ 812 mil captados pela Lei Rouanet para a digitalização de O Pasquim, devido a problemas na prestação de contas. No entanto, a digitalização do acervo pela Biblioteca Nacional foi uma iniciativa voluntária coordenada por Fernando Coelho dos Santos, corretor de seguros e admirador do jornal.
Fernando dedicou seu tempo à digitalização das edições cariocas e também coordenou a digitalização das edições regionais de São Paulo e Rio Grande do Sul. Ele conseguiu reunir e digitalizar 98% das edições das franquias regionais, com apenas duas faltando.
