USD ... | EUR ... | PETR4 R$ 37,24 ▼ -1,38% | VALE3 R$ 84,82 ▲ 0,59% | ITUB4 R$ 33,50 ▲ 1,12% | B3SA3 R$ 12,40 ▼ -0,45% | BBAS3 R$ 56,90 ▲ 0,22% | IBOV 127.000 pts ▼ -0,80% | BTC R$ 340.000 ▲ 2,00% | JA Money Acompanhe em tempo real
ADVERTISEMENT

Expedição Barco Ciência leva saúde e cidadania a ribeirinhos isolados de Porto Velho, superando distâncias extremas

Expedição Barco Ciência leva saúde e cidadania a ribeirinhos isolados de Porto Velho, superando distâncias extremas

Centenas de pessoas se reuniram na UPA de Calama, distrito de Porto Velho, em Rondônia, aguardando o atendimento da expedição Barco Ciência, Saúde e Cidadania. A iniciativa, em sua sexta edição, proporcionou acesso a diversos serviços essenciais para comunidades ribeirinhas, que enfrentam dificuldades extremas para obter atendimento médico e outros serviços básicos.

A maioria dos serviços oferecidos pela expedição não existe nas proximidades das comunidades ou só é acessível após viagens exaustivas, que podem durar até nove horas. A ação, realizada entre 20 e 24 de maio, foi promovida pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Pesquisa e Conhecimento de Excelência da Amazônia Ocidental e Oriental (INCT-CONEXAO) em parceria com a faculdade Afya São Lucas, de Porto Velho.

Mais de 100 pessoas, entre estudantes, professores e pesquisadores, estiveram a bordo do barco, dedicando-se a ações voltadas à saúde, educação e cidadania. A expedição navegou pelo Rio Madeira, na região do Baixo Madeira, visitando as comunidades de Calama, Nazaré e São Carlos, levando atendimento direto à população, além de atividades educativas e científicas. Conforme divulgado, em Calama, a maior comunidade da região com cerca de 2,3 mil habitantes, o barco atracou nos dois primeiros dias da ação.

Desafios de acesso à saúde em comunidades ribeirinhas

A agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis, 52 anos, moradora da comunidade Gleba Rio Preto, relatou à Agência Brasil as dificuldades enfrentadas. Para chegar ao local de atendimento, ela viajou por mais de duas horas e meia em uma rabeta, embarcação pequena, após percorrer cerca de 12 km a cavalo. “Para a gente vir no posto para fazer exame de malária, um exame comum, a gente tem que vir até Calama. É essa a dificuldade, sair de lá para ser atendida”, explicou.

Vânia destacou a importância da expedição, pois muitas vezes as comunidades não ficam sabendo da chegada do barco a tempo. “Como é longe, a gente tem essa dificuldade e, às vezes, quando a gente chega, o barco já foi embora”, disse. Ela contou com a ajuda de uma vizinha para saber da expedição e se organizar, precisando sair de casa na véspera para garantir o atendimento.

No dia anterior à consulta oftalmológica, Vânia já havia sido atendida por um clínico geral e um dentista, além de ter recebido serviços de estética. Ela expressou alívio por conseguir óculos de grau, um dos serviços mais procurados na expedição, com mais de 200 atendimentos oftalmológicos realizados e 300 óculos doados em parceria com uma ótica de Porto Velho.

Atendimento abrangente e diversificado

A expedição ofereceu uma gama completa de serviços, que incluíam atendimento médico, de enfermagem, oftalmológico, biomédico, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, educação física e até mesmo área jurídica. A triagem inicial permitia identificar as necessidades de cada paciente, aferindo peso, altura, IMC e pressão arterial, antes de direcioná-los ao atendimento adequado.

O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, explicou que o fluxo foi organizado para atender à demanda espontânea. “Dividimos o fluxo essencial pensando nos atendimentos que estamos trazendo”, afirmou. Equipamentos como cadeiras odontológicas, instrumentos para diagnóstico ocular e kits para exames laboratoriais foram transportados no barco.

O pequeno Azafi Pitangui, morador de Calama, ficou entusiasmado após receber atendimento odontológico. “Gostei do dentista, mas não chorei, não!”, relatou o menino, que sonha em ser médico para ajudar outras pessoas.

Logística complexa e a realidade do dia a dia

Para o estudante de odontologia Jonatas Ponce, a expedição foi uma oportunidade de aprendizado e de contato com uma realidade desafiadora. Ele se espantou com a dificuldade de acesso a itens básicos como escovas de dente, creme dental e medicamentos. “A logística é muito complicada. Para o atendimento, eu mesmo trouxe apenas uma pequena mochila com roupa, o resto foi tudo material, instrumental, medicamento, porque a gente sabe que as pessoas às vezes não têm acesso a coisas consideradas básicas”, comentou.

Porto Velho, com seus mais de 34 mil km², é a maior capital em extensão territorial do Brasil, o que torna o deslocamento um grande desafio. A distância entre a sede administrativa do município e Calama, por exemplo, ultrapassa os 200 km em linha reta, exigindo longas viagens fluviais de nove a 15 horas. Outra rota possível é via Humaitá, no Amazonas, seguida por uma viagem de voadeira pelo Rio Madeira.

Luiz Antôno Prado, 32 anos, morador de Glebas, próximo a Calama, destacou a dificuldade em casos de emergência. “Tem que colocar na voadeira. E nem sempre tem um ‘motorista’. Para eu sair daqui para a cidade é muito difícil”, disse. Muitos ribeirinhos buscam atendimento no município de Humaitá, que é mais próximo do que o centro de Porto Velho.

Cuidados contínuos e a importância da prevenção

A expedição também realizou atendimentos domiciliares para pessoas com dificuldade de locomoção, como o ex-seringueiro Manoel Dourado da Silva, 88 anos. Manoel, que sofreu um AVC, tem problemas de locomoção, pressão alta, diabetes e dificuldades auditivas. Ele recebeu medicação e orientações para sua filha, Maria Aires, que também buscou acompanhamento para seu diabetes.

O médico e professor da Afya São Lucas, Gabriel Aurélio de Paiva, que comandou a equipe de saúde, confirmou a alta incidência de diabetes e pressão alta entre os atendidos. “O básico que a gente tem mais visto é a famosa diabetes, pressão alta também tem demais, é meio descompensado”, observou. Ele ressaltou a importância do acompanhamento médico e da adesão ao tratamento, alertando para o risco de tratamentos tradicionais que não substituem a medicação prescrita.

Para os estudantes, a participação na expedição representou uma experiência valiosa de imersão no “mundo real”, como descreveu o professor Paiva. “Para os alunos é uma experiência, enfim, do mundo real. É um mundo real, porque lá no ambulatório eles ficam numa bolha muito grande”, afirmou. A iniciativa reforça a importância de iniciativas que levam atendimento à saúde e promovem a cidadania em áreas remotas, conectando estudantes com a realidade de populações vulneráveis.

Menu