Nova tecnologia promete diagnóstico precoce da hanseníase no Brasil com exame de sangue e IA
A hanseníase, doença milenar que ainda representa um desafio significativo para a saúde pública no Brasil, pode estar prestes a ter seu diagnóstico transformado. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um método inovador que combina um exame de sangue com inteligência artificial (IA) e um questionário clínico.
Essa nova abordagem tem o potencial de identificar a doença em seus estágios iniciais, mesmo quando os sintomas são sutis ou inexistentes, superando as limitações dos métodos tradicionais que frequentemente falham em detectar a hanseníase em fases precoces.
A iniciativa, que aproveitou amostras de sangue coletadas durante um inquérito sorológico da Covid-19 em Ribeirão Preto, busca identificar pessoas expostas ao bacilo da hanseníase de forma mais eficaz. Conforme informação divulgada pelo estudo, essa estratégia visa a detecção antecipada de novos casos, uma etapa crucial para o controle da doença.
O Poder da Combinação: Exame de Sangue e Inteligência Artificial
O novo método diagnóstico avaliado pela USP se baseia em duas ferramentas principais de triagem. A primeira é um aprimoramento do questionário clínico de suspeição de hanseníase (QSH), que agora conta com a inteligência artificial do sistema MaLeSQs para uma análise mais precisa das 14 questões focadas em sinais e sintomas neurológicos.
A segunda ferramenta é um exame de sangue que detecta a presença de anticorpos contra o antígeno Mce1A, uma proteína essencial do bacilo da hanseníase, o Mycobacterium leprae. Diferentemente do teste tradicional que utiliza o antígeno PGL-I e é menos sensível, o novo exame analisa três classes de anticorpos (IgA, IgM e IgG).
Essa análise ampliada aumenta significativamente a sensibilidade do teste, permitindo diferenciar entre exposição ao bacilo, infecção ativa e contato prévio. Segundo Filipe Lima, um dos autores do estudo, o teste tradicional anti-PGL-I só costuma detectar a doença em formas mais graves, quando o bacilo já se proliferou. O Mce1A, por outro lado, “permite identificar o contato com o bacilo e a doença ativa de forma muito mais precoce”, explica.
Resultados Promissores: Diagnóstico em Massa e Sem Sintomas
Para validar a estratégia, cerca de 700 pessoas que participaram de um inquérito populacional sobre Covid-19 foram convidadas a integrar o estudo sobre hanseníase. Dessas, 224 responderam ao questionário digital e 195 tiveram amostras de sangue analisadas. Um grupo menor compareceu a uma consulta clínica presencial para confirmação diagnóstica.
Ao cruzar os dados, a pesquisa revelou um achado surpreendente: 12 novos casos de hanseníase foram diagnosticados entre os indivíduos avaliados, o que representa cerca de um terço do grupo. O mais notável é que se tratavam de pessoas sem sintomas evidentes, que sequer suspeitavam estar doentes.
A análise laboratorial demonstrou que o anticorpo IgM contra o antígeno Mce1A foi o mais eficaz, identificando dois terços dos novos casos confirmados. Quando a análise laboratorial foi combinada com a ferramenta de inteligência artificial, o método atingiu 100% de sensibilidade, indicando todos os casos suspeitos que foram posteriormente confirmados clinicamente.
Ampla Acessibilidade e Próximos Passos para o SUS
O exame de sangue, embora não confirme o diagnóstico sozinho, funciona como uma ferramenta crucial para indicar quais indivíduos necessitam de avaliação especializada. Pesquisadores acreditam que o teste pode fortalecer a triagem diagnóstica na rede pública de saúde, com um custo operacional mínimo em comparação aos exames já utilizados.
“Do ponto de vista laboratorial, são técnicas muito semelhantes, de baixo custo e fácil execução. Qualquer laboratório de análises clínicas tem capacidade técnica para realizá-las. Na prática, o que muda é apenas a molécula analisada”, afirma Lima. A hanseníase, que afeta principalmente pele e nervos, acomete mais de 200 mil pessoas anualmente no mundo, com o Brasil ocupando a segunda posição global em número de casos.
O próximo passo é validar essas ferramentas para uso em larga escala, com o objetivo de incorporá-las ao Sistema Único de Saúde (SUS). Paralelamente, os pesquisadores buscam aumentar a especificidade do marcador Mce1A, estudando pequenas partes da proteína para desenvolver um teste ainda mais sensível e preciso.
