Domingo, 01 de Novembro de 2026 às 10:41
ADVERTISEMENT

IA Revolucionária Detecta Infarto Mais Grave e Localiza Artéria Bloqueada com Precisão Inédita

Inteligência artificial promete agilizar diagnósticos de infarto, identificando o tipo mais letal e a artéria bloqueada com alta precisão.

Um avanço significativo na cardiologia promete transformar o atendimento de emergência. Uma ferramenta de inteligência artificial (IA) foi desenvolvida para auxiliar médicos e socorristas na identificação rápida e precisa do tipo mais grave de infarto, causado pelo bloqueio total das artérias do coração.

O sistema, fruto de uma colaboração internacional entre pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, e da Universidade de São Paulo (USP), analisa dados de eletrocardiogramas (ECG) digitais. A tecnologia não só detecta a obstrução aguda, mas também aponta, de forma inédita, o local exato onde a artéria está comprometida.

Essa inovação, validada em população brasileira e publicada na revista Nature Communications, é considerada um divisor de águas no tratamento de infartos. Conforme divulgado pelos pesquisadores, o tempo é crucial em casos de infarto agudo do miocárdio, e a IA tem o potencial de oferecer a agilidade necessária para salvar o músculo cardíaco.

O Poder da IA na Detecção de Infartos

A inteligência artificial em questão é a primeira a ser validada em território brasileiro com a capacidade de identificar e localizar infartos por oclusão coronariana utilizando apenas um ECG de 12 derivações. Este exame, conhecido por ser rápido, acessível e de baixo custo, registra a atividade elétrica do coração sob diferentes ângulos. A ferramenta é capaz de reconhecer padrões sutis nos traçados que, muitas vezes, escapam à análise visual humana, auxiliando significativamente a tomada de decisão médica.

O Dr. José Eduardo Krieger, diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do Instituto do Coração (InCor-USP) e um dos autores do estudo, ressalta a importância da rapidez. “Nos casos de infarto agudo do miocárdio, as decisões precisam ser rápidas, pois cada minuto importa. Se a artéria estiver totalmente obstruída e não permitir levar o oxigênio, o músculo cardíaco morre e isso é irreversível. Por isso, o tempo é o grande definidor [do prognóstico]. A ferramenta de IA poderá dar mais agilidade ao processo”, explica Krieger.

Agilidade e Segurança em Situações Críticas

Em situações onde o paciente não consegue chegar rapidamente a um hospital, os médicos em ambulâncias enfrentam um dilema: administrar um medicamento trombolítico para desobstruir a artéria. Embora essa medicação salve vidas, ela pode acarretar efeitos colaterais graves, como o acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. A IA atua como um classificador de alta precisão, oferecendo mais segurança para a equipe médica intervir quando o benefício supera o risco.

A expectativa é que, futuramente, o sistema de IA possa analisar os dados do ECG em tempo real. Isso permitiria a identificação quase imediata dos sinais de oclusão coronariana aguda, agilizando o reconhecimento de pacientes que necessitam de cateterismo urgente e, consequentemente, o encaminhamento para a restauração do fluxo sanguíneo.

Identificando Sinais Sutis e Desafiadores

Identificar um infarto agudo do miocárdio e determinar qual artéria está obstruída nem sempre é uma tarefa simples. Em muitos casos graves, o ECG não exibe o “supradesnivelamento do segmento ST” (supra-ST), um marcador clássico que indica o diagnóstico. “Há pacientes com 100% de oclusão cujo ECG não apresenta os padrões clássicos esperados”, detalha Krieger.

Nessas situações, a confirmação diagnóstica geralmente exige a integração de informações clínicas, exames laboratoriais para dosagem de biomarcadores cardíacos como a troponina, e exames de imagem complementares. O grande desafio é que, em um infarto, cada minuto é valioso. A IA se destaca por revelar sinais sutis que podem passar despercebidos no traçado tradicional.

Validação e Precisão da Ferramenta de IA

O modelo de IA foi treinado com um vasto conjunto de 540.372 exames de ECGs de 225.884 pacientes. Os dados foram coletados em serviços de emergência na Suécia entre 2005 e 2016. A validação posterior ocorreu em uma coorte independente de 401 pacientes atendidos no InCor, em São Paulo, entre 2017 e 2024, além de dados públicos da Europa e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A precisão da inteligência artificial foi notável. Em infartos com alterações bem definidas no ECG (supra-ST), o sistema atingiu uma assertividade de 96%. O principal avanço, contudo, foi observado em casos onde essas alterações não são evidentes, representando um desafio significativo na prática clínica. Nessas condições, a ferramenta conseguiu distinguir corretamente a oclusão em 82% das avaliações, conforme explicou Marco Antonio Gutierrez, coautor do trabalho e diretor do Serviço de Informática do InCor.

IA como Apoio, Não Substituição do Médico

É fundamental ressaltar que a tecnologia foi desenvolvida para apoiar, e não substituir, a tomada de decisão médica. A interpretação clínica do paciente, a integração com outros exames e a definição do tratamento continuam sendo responsabilidade exclusiva da equipe de saúde. A IA atua como uma ferramenta de apoio, identificando rapidamente padrões de risco que podem passar despercebidos em situações de alta pressão assistencial.

O próximo passo para a equipe é aprofundar a validação da ferramenta no InCor, avaliando seu desempenho em condições reais de atendimento. A adoção clínica da tecnologia dependerá, ainda, da aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Menu