Jorge Bodansky lança “Um Olhar Inquieto”, documentário que une memórias, imagens raras e crítica social sobre a Amazônia
Em um mergulho em sua própria trajetória, o renomado cineasta Jorge Bodansky apresenta seu mais novo documentário, “Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodansky”. O filme, que participou da mostra competitiva ambiental do Bonito Cinesur, em Mato Grosso do Sul, traz à tona um achado surpreendente: imagens de 1973 de indígenas Paiter Suruí isolados, filmadas acidentalmente durante um sobrevoo em Aripuanã (MT).
Essas gravações, feitas com uma câmera Super-8 enquanto Bodansky cobria a criação da Cidade Laboratório de Humboldt, um projeto da ditadura militar, ficaram esquecidas por décadas. A redescoberta dessas imagens motivou o cineasta a revisitar não apenas aquele momento específico, mas toda a sua carreira cinematográfica, resultando em um trabalho profundamente pessoal e socialmente engajado.
O documentário, exibido recentemente no festival Bonito Cinesur, é uma jornada autobiográfica que explora as conexões entre o passado e o presente, evidenciando as transformações drásticas na Amazônia e as consequências da ocupação territorial iniciada durante o regime militar. A obra é uma reflexão sobre a persistência do olhar cinematográfico de Bodansky e as mudanças irreversíveis em uma das regiões mais vitais do planeta, conforme divulgado em matéria sobre o filme.
O Acaso que Desencadeou uma Busca por Respostas
Em 1973, a missão de Jorge Bodansky era registrar a criação da Cidade Laboratório de Humboldt, um ambicioso projeto da ditadura militar brasileira para ocupar a Amazônia. Durante um sobrevoo de helicóptero nos arredores de Aripuanã, Mato Grosso, com uma câmera Super-8 em mãos, o cineasta capturou imagens inesperadas: um grupo de indígenas Paiter Suruí isolados, que tentavam flechar o avião.
Essas imagens cruas e impactantes, que não foram enviadas à TV alemã para a qual trabalhava na época, permaneceram arquivadas e esquecidas. Recentemente, com a digitalização de seu acervo, Bodansky se deparou com esse material intrigante. “Puxa vida, isso me intrigou muito. Quem são esses indígenas?”, refletiu o cineasta, motivado a buscar respostas e a revisitar o local.
Um Olhar Inquieto: A Continuidade da Visão Cinematográfica
Apesar das décadas que separam as filmagens originais de “Um Olhar Inquieto”, Bodansky afirma que sua essência cinematográfica permanece inalterada. O título do documentário reflete essa constância: “Eu acho que meu olhar continua inquieto. Eu sempre olho e procuro as coisas.”
Ele descreve seu estilo como um “cinema de aventura, de observação e preocupado com a questão social”. Essa abordagem, focada em capturar a realidade com um olhar atento e questionador, é a marca registrada de sua obra, mantendo-se fiel à sua visão artística ao longo de sua carreira.
A Amazônia Transformada: Do Projeto Militar à Soja Sem Fim
O retorno de Bodansky à região de Aripuanã, 50 anos após o primeiro sobrevoo, revela uma paisagem drasticamente alterada. O projeto Humboldt, que deveria ser um marco de desenvolvimento, encontra-se em ruínas. Mais chocante ainda é a transformação da paisagem natural.
“Quando eu estive lá, era floresta até o horizonte. Hoje é soja até o horizonte.”, lamenta o cineasta. Essa mudança drástica simboliza a contínua exploração da Amazônia, um modelo de ocupação que, segundo Bodansky, não cessou desde a ditadura militar e persiste independentemente do governo.
A Luta pela Amazônia e a Força da Organização Comunitária
Bodansky critica a visão predatória sobre a Amazônia, que a trata como um vazio a ser preenchido e explorado, ignorando a presença e os desejos de seus habitantes. Para ele, a solução para os problemas da região reside na organização e mobilização da sociedade civil.
“Hoje você vai a qualquer comunidade quilombola, ribeirinha ou indígena e eles estão organizados, têm representatividade, sabem o que querem.”, observa o cineasta, destacando a força das comunidades tradicionais em sua luta pela preservação de seus territórios e modos de vida, um eco direto das transformações e desafios que ele documentou ao longo de sua carreira.
