Projeto “SUS na Floresta” revoluciona o acesso à saúde para ribeirinhos no Amazonas, levando atendimento médico a comunidades remotas e encurtando distâncias antes intransponíveis.
Moradores de comunidades ribeirinhas no Amazonas, que antes enfrentavam viagens de dias para ter acesso a consultas médicas, agora contam com pontos de atendimento de saúde mais próximos. O projeto “SUS na Floresta”, uma iniciativa inovadora, visa adaptar e fortalecer a Atenção Primária à Saúde em áreas de difícil acesso, considerando os desafios logísticos e culturais da região amazônica.
A chegada dessas novas unidades de saúde representa um marco para milhares de pessoas, incluindo gestantes, crianças e idosos, que terão seus tratamentos e acompanhamentos mais acessíveis. A expectativa é de que a proximidade dos serviços de saúde reduza a necessidade de deslocamentos longos e perigosos, além de otimizar o uso de recursos e a resposta a emergências.
O projeto é resultado de uma colaboração entre diversas entidades, como a Fundação Amazônia Sustentável (FAS), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Umane, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e apoio da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas. A iniciativa reforça o Sistema Único de Saúde (SUS), integrando-o de forma eficaz à realidade amazônica, conforme informações divulgadas pelas entidades envolvidas no projeto.
Estrutura e Tecnologia a Serviço da Saúde Ribeirinha
As novas unidades de atendimento são equipadas com consultórios para consultas presenciais e remotas, salas de triagem, consultórios odontológicos e conexão à internet para uso da telessaúde. Essa estrutura adaptada à realidade local permite o atendimento de diversas necessidades de saúde, desde consultas de rotina e pré-natal até o tratamento de ferimentos e vacinação.
A tecnologia de telessaúde é um componente crucial, permitindo que pacientes em comunidades remotas consultem médicos especialistas sem a necessidade de longos deslocamentos. Profissionais de saúde, como enfermeiros e técnicos de enfermagem, revezam-se nas unidades, garantindo a presença contínua de atendimento primário.
O modelo “SUS na Floresta” busca não criar uma estrutura paralela ao SUS, mas sim reforçá-lo, integrando os profissionais de saúde à rede pública e à Estratégia Saúde da Família, como explica Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS.
Histórias que Ilustram a Necessidade e o Impacto do Projeto
Aldeniza Silva e Silva, grávida de sete meses, relata que antes precisava viajar por dois ou três dias de rabeta para realizar seu pré-natal na cidade. Com a inauguração do ponto de atendimento em Campina, sua realidade mudou drasticamente: “Agora [a distância] é só de uma praia”, comemorou.
Maria Valkiane Freitas e Silva, da comunidade de Bauana, também sentia o peso do deslocamento, que custava cerca de R$ 160 apenas para ir à cidade. Com o novo posto, a distância foi encurtada, facilitando o acesso a consultas médicas essenciais.
Cecilia Bispo de Lima, da comunidade de São Francisco, compartilhou sua experiência de adoecimento da coluna, que a fez sofrer por não conseguir chegar a tempo na cidade. A proximidade do novo posto de saúde traz alívio e esperança de um atendimento mais rápido e eficaz.
Ambulâncias Fluviais e a Importância da Prevenção
Em situações de emergência, a prefeitura de Carauari dispõe de lanchas de resgate, as “ambulanchas”, que realizam o transporte de pacientes em percursos que podem durar horas ou dias. No entanto, a presença de postos de saúde mais próximos tem evitado a necessidade de acionar esses recursos em diversos casos.
Thiago Freitas Andrade, que sofreu um ferimento no pé ao pisar em pregos, foi atendido rapidamente no ponto de saúde em Campina, recebendo medicação e cuidados que aliviaram sua dor intensa. Um caso semelhante envolveu uma criança que se machucou com um anzol de pesca.
A prevenção de doenças, como gripes comuns em crianças, e a garantia da continuidade de tratamentos, como para hipertensos, são benefícios diretos da descentralização do atendimento. A estratégia de vacinação também é fortalecida, facilitando o acesso para crianças como o pequeno Antonio Pedro.
Expansão e o Futuro da Saúde na Amazônia
O projeto “SUS na Floresta” prevê a instalação de um total de seis pontos de atendimento. Duas unidades já foram inauguradas em Carauari, e outras estão planejadas para Itapiranga e Novo Aripuanã, além de um alojamento para profissionais de saúde em Uarini. Esses pontos atenderão 56 comunidades ribeirinhas, beneficiando cerca de 4,7 mil pessoas.
A iniciativa, estruturada pela FAS desde 2020, busca preparar o sistema de saúde para lidar com situações excepcionais, como pandemias e eventos climáticos. “Estamos fazendo isso em prol da saúde pública, em apoio a manter essas pessoas em pé até porque são elas que cuidam para manter a floresta em pé”, afirma Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS.
Ao aproximar a Atenção Primária das comunidades, o “SUS na Floresta” contribui para prevenir agravamentos de saúde, garantir a continuidade de tratamentos e efetivar o direito universal à saúde, adaptando-se às necessidades específicas de cada território amazônico, conforme destaca Guilherme Sylos.
