Sexta-feira, 24 de Julho de 2026 às 15:46
ADVERTISEMENT

Bonito CineSur: Cinema Sul-Americano Revela Narrativas Indígenas e Celebra Legado de Vincent Carelli

Festival Bonito CineSur em MS celebra a rica diversidade do audiovisual sul-americano com foco em narrativas indígenas e homenagens importantes

A cidade de Bonito, em Mato Grosso do Sul, sedia a quarta edição do festival Bonito CineSur, um evento que se consolida como um ponto de encontro e integração para o cinema e o audiovisual da América do Sul. Até o dia 1º de agosto, o público poderá conferir uma programação variada, que, de forma orgânica, traz à tona um número significativo de filmes com temáticas e contextos indígenas.

A curadoria, liderada por Zé Geraldo Couto, busca uma combinação de qualidade estética e narrativa, relevância temática e capacidade de comunicação com um público amplo. Couto explica que, embora não haja uma definição prévia de temas, a oferta de filmes da temporada muitas vezes revela tendências e conexões entre as obras, permitindo a detecção de temas emergentes como as narrativas indígenas.

Conforme divulgado pela organização do evento, as obras que abordam questões indígenas estarão presentes em diversas mostras, como a Ambiental, a Sul-Mato-Grossense e em sessões especiais. Zé Geraldo Couto ressalta a importância de dar visibilidade a essas narrativas, mesmo reconhecendo que a presença de temas indígenas no festival ainda é pequena diante da relevância desses povos no continente.

Um Olhar Histórico e Contemporâneo sobre Povos Originários

Entre os destaques que abordam a temática indígena, está o documentário Aldeia de Nalike, filmado em 1936 por Claude e Dina Lévi-Strauss, que registra o povo Kadiwéu. Uma novidade nesta exibição é a apresentação de uma trilha sonora original, criada para potencializar o resgate histórico e cultural da obra. Marcos Pierry, curador da Mostra Sul-Mato-Grossense, destaca que a obra, ao completar 90 anos, reflete uma mudança na abordagem, saindo de um olhar folclórico para um enfoque mais sensível e interessado.

Pierry também enfatiza a evolução do cinema feito por indígenas: “Hoje tem essa marca: o indígena sai da frente da câmera e vai para trás das câmeras contar suas próprias histórias, não só documentando ou denunciando, muitas vezes atrelado à questão ambiental, mas também propondo ficção. Isso é de uma riqueza grande, uma chance grande para nós todos aprendermos.”

Presença de Lideranças e Debates Cruciais

O festival contará com a presença especial do líder indígena Almir Suruí, que acompanhará a exibição do filme Minha Terra Estrangeira. O documentário aborda a disputa política e a luta pela preservação da Amazônia, discutindo temas como território, resistência indígena e a urgência de pensar o futuro. A sessão especial com a presença de Suruí está marcada para a próxima terça-feira, dia 28.

A diversidade de olhares sobre as culturas originárias se estende a produções internacionais, como o curta colombiano Sukua e o boliviano Uma Uñjirinaka Cuidadorxs del Agua, que retratam a luta de comunidades contra a contaminação hídrica. Zé Geraldo Couto reforça que, em um festival com foco no meio ambiente e na pluralidade cultural, é natural que as culturas indígenas ganhem protagonismo, uma vez que a defesa da natureza se alinha à preservação e valorização dos povos originários.

Homenagem a Vincent Carelli e o Poder do Cinema Indígena

O cineasta Vincent Carelli será homenageado com o Troféu Pantanal, em reconhecimento à sua vasta obra cinematográfica e ao seu trabalho pioneiro no projeto Vídeo nas Aldeias. Criado em 1986, o projeto capacitou indígenas para a produção audiovisual, resultando em mais de 70 filmes feitos por eles mesmos. Carelli defende que o cinema produzido por indígenas oferece uma perspectiva única e autêntica, revelando suas realidades e significados em seu próprio contexto.

“O cinema indígena não vem ensinar nada para ninguém, mas apresentar visões mais profundas sobre o universo dos povos indígenas”, afirma Carelli. Ele destaca a espontaneidade e a verdade nas narrativas propostas, que promovem um diálogo intercultural e combatem o desconhecimento sobre o próprio Brasil. A capacidade de propor algo novo e verdadeiro, mesmo fora da cultura cinematográfica tradicional, é um dos pontos fortes apontados pelo cineasta.

Programação Abrangente e Acessível

O Bonito CineSur apresentará 32 produções de 13 países sul-americanos, incluindo Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai e Venezuela. Além das exibições, o festival promoverá palestras, cine debates, atividades formativas e encontros com realizadores. Todas as atividades são gratuitas e ocorrem no Centro de Convenções de Bonito.

A atriz chilena Paulina García, reconhecida por seus papéis em filmes como “Gloria”, também será homenageada no festival. Ela estrela o filme de abertura, Querido Trópico, exibido na noite de estreia. A programação completa e mais informações estão disponíveis no site oficial do evento.

Menu