Segunda-feira, 14 de Setembro de 2026 às 14:05
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Viva Maria: O programa de rádio que empodera mulheres há 45 anos e se torna referência internacional

Viva Maria: 45 anos de voz e luta feminina na Rádio Nacional transformam vidas e inspiram o Brasil

Na segunda-feira, 14 de setembro, uma data especial marcou os 45 anos de um programa que se tornou sinônimo de empoderamento e cidadania para as mulheres brasileiras: o Viva Maria, da Rádio Nacional. Fundado pela jornalista Mara Régia di Perna, o programa nasceu com o sonho de dar voz às reivindicações femininas e, desde então, tem sido um farol de informação e esperança.

Com 8,2 mil edições veiculadas ao longo de quase cinco décadas, o Viva Maria transcendeu as ondas do rádio para se tornar uma referência internacional em temas como gênero, direitos humanos e cidadania. A trajetória de sucesso e impacto social do programa é celebrada agora com uma série de 14 podcasts lançados pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

A história do Viva Maria é um testemunho da força da comunicação como ferramenta de transformação. O programa não apenas informou, mas também mobilizou, inspirou e contribuiu diretamente para a conquista de direitos importantes para as mulheres no Brasil. Conforme informações divulgadas pela EBC, a iniciativa se consolidou como um espaço vital para a discussão e a busca por igualdade.

Os Primórdios de um Sonho e a Luta pela Cidadania

Em 14 de setembro de 1981, a jornalista Mara Régia di Perna, então com 30 anos, sentia a ansiedade e a responsabilidade de estrear como âncora do Viva Maria. O programa, concebido por ela, era voltado para os direitos sociais das mulheres, um tema pioneiro e essencial em uma época de grandes debates sobre cidadania feminina no Brasil. Mara relembra a emoção do primeiro dia: “Eu estava em uma tremedeira e rouca. Sabia da responsabilidade que iria significar”.

O programa nasceu em um período crucial, especialmente com a promulgação da Constituição. Mara Régia participou ativamente da divulgação da Carta das Mulheres aos Constituintes, um documento histórico entregue em 1987 com reivindicações feministas. Ela destaca a importância do Viva Maria nesse processo: “Toda essa articulação feita através do Fórum das Mulheres do Distrito Federal nasceu no auditório da Rádio Nacional com a força do Viva Maria”. O anúncio original do programa ecoa sua missão: “Quando entrar setembro, as Marias haverão de consolidar seu espaço na comunicação brasileira através de um programa que chega para fazer com que você seja ouvida nas suas reivindicações”.

Temas Essenciais e o Combate à Violência Contra a Mulher

Ao longo de seus 45 anos, o Viva Maria abordou uma vasta gama de assuntos de interesse feminino, como mercado de trabalho, direitos sociais, saúde e educação. A participação ativa das ouvintes, por telefone e cartas, tornou o programa um diálogo constante e um reflexo das necessidades reais da sociedade. Com o tempo, o enfrentamento à violência contra a mulher ganhou um espaço de destaque, impulsionado pelas experiências pessoais de Mara Régia.

A inspiração veio de sua própria história: sua mãe, Yolanda, foi vítima de violência doméstica. Essa realidade revoltava a jornalista, que se dedicou a fazer com que outras mulheres não passassem pelo mesmo sofrimento. Sua mudança para Brasília, a formação em jornalismo e publicidade, e um período de aprimoramento em Londres reforçaram seu compromisso com as temáticas de gênero.

Impacto Social e a Criação da Primeira Delegacia da Mulher

As mobilizações promovidas pelo Viva Maria foram fundamentais para a criação da primeira delegacia especializada no atendimento à mulher em Brasília, em 1986. O programa se consolidou como um “espaço de cidadania”, atraindo a atenção de pesquisadores, com pelo menos 30 estudos acadêmicos sobre seu impacto. Apesar das ameaças que Mara Régia chegou a receber, ela jamais pensou em desistir, afirmando: “Eu tinha que conseguir construir as políticas. Quando você abraça o seu destino, não pode traí-lo.”

Mara chama as ouvintes e participantes de “Marias”, criando um laço de confiança e identificação. A troca intensa por telefone, cartas e e-mails demonstra a profunda conexão entre a equipe do rádio e o público. Além do reconhecimento popular, o Viva Maria acumula mais de 30 prêmios nacionais e internacionais, atestando sua relevância e qualidade.

Histórias de Superação e Transformação

O Viva Maria se tornou uma verdadeira missão de vida para Mara Régia. Um exemplo marcante de seu impacto é a campanha em prol das vítimas de escalpelamento no Amapá, que levou à doação de perucas. A professora Rosinete Serrão, vítima desse tipo de acidente, tornou-se uma voz ativa após ser entrevistada pelo programa, inspirando outras mulheres a não desistirem de seus objetivos.

“Não só descobrimos que existiam outras mulheres, como também, ao ser entrevistada pelo Viva Maria, passamos a inspirar mulheres a não pararem diante do acidente”, afirma Rosinete, que, após receber uma peruca, retornou aos estudos e se formou em pedagogia. Na Região Norte, o programa também deu visibilidade ao trabalho de parteiras, como Maria Zenaide Carvalho, que ressalta: “Lá no seringal, o rádio é o preferido. Nós parteiras do Acre e da Região Norte nos comunicamos por ele. O programa nos uniu.”

A radialista Mara Régia inspirou também a trabalhadora rural Kennya Silva, que teve sua poesia divulgada pelo programa. A partir de uma entrevista concedida após o envio de uma carta, Kennya retomou os estudos, cursou letras e transformou sua vida, encontrando no rádio “músicas, informações, poesia e vida”.

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