Samba-enredo é um grande enunciado político, defende sociólogo Rodrigo Reduzino em nova pesquisa sobre a ditadura militar e a cultura popular brasileira.
O avanço da democracia no Brasil, especialmente no século XX, foi marcado por turbulências e não por um progresso linear. Nesse cenário, as escolas de samba e seus criadores enfrentaram perseguições, censura e prisões. A pesquisa do sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, intitulada “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, lança luz sobre essa luta pouco explorada.
A tese de doutorado, desenvolvida na Unicamp, foca nos enredos do Grupo Especial do Rio de Janeiro durante a década de 1980, período que abrange o fim da ditadura militar e a campanha pelas Diretas Já. O trabalho originou o documentário “Enredos da Liberdade”, disponível em streaming.
Reduzino, que também atua na Secretaria de Educação do Rio de Janeiro e no Departamento Cultural da Mangueira, destaca que o samba-enredo, muitas vezes subestimado, carrega uma forte carga política e um papel crucial na expressão de identidades e na resistência cultural, especialmente para a população negra. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, o sociólogo afirma que “o samba-enredo é um grande enunciado político”.
O apagamento histórico e a resistência do samba-enredo
Ainda que a Música Popular Brasileira (MPB) seja frequentemente lembrada em discussões sobre resistência à ditadura militar, o papel das escolas de samba nesse período é menos discutido. Rodrigo Reduzino explica que o racismo estrutural na sociedade brasileira contribui para o apagamento da contribuição intelectual e cultural de segmentos como o samba.
Ele ressalta que a análise dos enredos deve ir além do desfile em si, considerando o longo processo de criação e debate dentro das comunidades. “Quando vemos uma escola de samba fazendo crítica à tortura ou gritando ‘liberdade’ em pleno regime ditatorial, há um processo político muito mais alargado”, pontua o sociólogo.
Repressão estatal e a conexão com o racismo
A repressão direcionada às escolas de samba, segundo Reduzino, intensifica a violência do Estado contra as camadas populares, a população negra e periférica. Ele associa essa violência a resquícios históricos, como o Código de Vadiagem, que historicamente marginalizou e criminalizou a cultura negra e seus praticantes.
“Não podemos esquecer os processos históricos. Não podemos esquecer o Código de Vadiagem”, afirma o pesquisador, lembrando que a ausência da carteira de trabalho poderia levar à prisão sob a alegação de vadiagem, um instrumento utilizado para associar pessoas negras a atividades ilícitas ou à ociosidade.
A complexa relação entre escolas de samba, bicheiros e o poder
A associação entre escolas de samba e o jogo do bicho, frequentemente vista como um indicativo de contravenção, tem raízes históricas profundas, especialmente durante a ditadura militar. Reduzino explica que os “mecenas do jogo de bicho” ganharam visibilidade nesse período, estabelecendo conexões diretas com o poder público.
“O jogo do bicho é do final do Século 19, mas a ideia desse empresariado mecenas, com visibilidade, é do período da ditadura. E é o mesmo bicheiro que toma champanhe dentro dos gabinetes com generais ou dentro do Palácio da Guanabara”, revela o sociólogo, apontando para a proximidade entre figuras do submundo e representantes do Estado.
O mito da democracia racial e a invisibilidade da desigualdade
A ideia de uma “democracia racial” no Brasil, forjada por parte da elite intelectual, é criticada por Reduzino como um pilar da estrutura racista do país. Ele argumenta que negar a realidade da desigualdade, onde a maioria dos jovens mortos pela polícia e das mulheres vítimas de violência obstétrica são negras, é uma forma de perpetuar o racismo.
“Quando se reforça o mito da democracia racial, está sendo dito que essas contradições da realidade não importam. Mantém como está, finge que está tudo bem, e a gente permanece nesse paraíso que inventaram a custo da existência do outro”, desabafa o pesquisador.
Reduzino também menciona que figuras proeminentes no estudo das relações raciais, como Lélia Gonzalez e Clóvis Moura, assim como movimentos culturais de expressão negra, incluindo as escolas de samba, foram fichados pelo DOPS por criticarem a noção de democracia racial. Essa vigilância demonstrava o receio do regime em relação a qualquer contestação da narrativa oficial.
