Empreendedorismo nas Favelas: Um Legado da Pandemia
A pandemia da COVID-19, que iniciou seus sinais no Brasil em fevereiro de 2020, desencadeou uma onda de empreendedorismo em favelas por todo o país. Uma pesquisa recente aponta que mais da metade dos negócios nessas comunidades foram abertos a partir desse período, demonstrando a capacidade de reinvenção e a busca por novas fontes de renda em tempos de crise.
Desde os momentos mais críticos da crise sanitária até o fim do estado de emergência em saúde, muitos brasileiros viram no empreendedorismo uma saída para a perda de empregos e a instabilidade econômica. A pesquisa, realizada pelo Data Favela, traz luz a essa realidade, mostrando que a necessidade se transformou em oportunidade.
O estudo, encomendado pela VR e divulgado pela Agência Brasil, detalha o perfil desses novos empreendedores, suas motivações e os desafios enfrentados. Acompanhe os principais dados e entenda como a economia das favelas tem se fortalecido com esses pequenos e médios negócios.
O Boom do Empreendedorismo Pós-Pandemia
Conforme dados do levantamento do Data Favela, impressionantes 56% dos negócios em favelas brasileiras iniciaram suas atividades a partir de fevereiro de 2020. Este período marca o início da pandemia no país. Um percentual de 12% dos empreendimentos surgiu entre fevereiro de 2020 e abril de 2022, fase mais aguda da crise sanitária. Já 44% foram estabelecidos após maio de 2022, quando o estado de emergência em saúde foi encerrado.
Cleo Santana, do Data Favela, explica que esse crescimento está diretamente ligado à crise econômica. “Muitas pessoas perderam seus empregos e precisaram se reinventar”, afirma. A necessidade de garantir o sustento familiar impulsionou a transformação de habilidades e hobbies em fontes de renda, como a produção de alimentos ou artesanato.
A designer Ligia Emanuel da Silva, que abriu seu negócio de acessórios em um território potiguar durante a pandemia, exemplifica essa tendência. Ela utiliza saberes tradicionais e elementos culturais africanos em suas peças, vendo no empreendedorismo um ato político de afirmação de identidade.
Perfil e Desafios dos Novos Empreendedores
A pesquisa entrevistou mil empreendedores em favelas de todo o Brasil. O levantamento revela que 51% faturam até R$ 3.040 mensais, com 23% ganhando até um salário mínimo (R$ 1.518). Na outra ponta, apenas 5% reportam receitas superiores a R$ 15,2 mil.
Os gastos para manter os negócios também são significativos, com 57% dos estabelecimentos gastando até R$ 3.040 por mês, o que sugere que os custos operacionais se aproximam do faturamento para muitos. O capital inicial para abrir um negócio veio, em sua maioria, de economias pessoais ou familiares (57%), seguido por indenizações trabalhistas e dinheiro extra.
Os principais desafios enfrentados por esses empreendedores são a falta de capital (51%) e a dificuldade de acesso ao crédito (25%). Karina Meyer, da VR, destaca a importância de ferramentas como crédito e gestão para o fortalecimento dessas economias locais.
Ferramentas Digitais e o Futuro do Empreendedorismo em Favelas
A divulgação e a gestão dos negócios nas favelas têm forte componente digital. 58% utilizam o WhatsApp para promover seus produtos, e 75% apostam no Instagram, como é o caso de Ligia. O Facebook também é relevante, com 41% dos empreendedores ativos na plataforma.
Apesar do avanço das ferramentas digitais, 34% dos negócios ainda dependem exclusivamente da propaganda boca a boca. A pesquisa também aponta que a forma de pagamento mais comum é o Pix (91%), seguido de perto pelo dinheiro em espécie (85%).
Os setores mais representados são alimentação e bebidas (45%), moda (12%) e beleza (13%), além do artesanato (8%). O desejo de independência (45%) e a necessidade econômica (29%) foram as principais motivações para abrir um negócio, mostrando que o empreendedorismo é tanto uma escolha quanto uma necessidade.
Economia das Favelas: Um Mercado em Crescimento
As comunidades brasileiras movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano, de acordo com o Data Favela. O desenvolvimento desses territórios está intrinsecamente ligado ao surgimento e fortalecimento dos negócios locais, que geram empregos, mesmo que informais, e impulsionam a economia.
Pequenos empreendedores tendem a consumir e comprar em suas próprias comunidades, criando um ciclo virtuoso que beneficia outros negócios locais. Essa dinâmica fortalece a economia das favelas e gera oportunidades para seus moradores.
O Censo 2022 revelou que 8% dos brasileiros, o que representa 16,4 milhões de pessoas, vivem em favelas. A pesquisa do Data Favela reforça a importância desses empreendedores na construção de uma economia mais forte e inclusiva, especialmente após o impacto da pandemia.
