Estudo da Unifesp: Como o comportamento dos pais influencia o consumo de álcool e drogas pelos filhos
Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) traz à tona a profunda influência que o uso de álcool e outras drogas por pais exerce sobre seus filhos. Os resultados, publicados na revista científica Addictive Behaviors, indicam que as atitudes parentais são cruciais na prevenção do consumo entre jovens.
No entanto, o estudo vai além, demonstrando que a forma como os pais educam e se relacionam com seus filhos pode ser um poderoso fator de proteção. Mesmo em lares onde os adultos consomem substâncias, como cigarro, vapes e maconha, um ambiente familiar positivo pode reduzir significativamente os riscos para os adolescentes.
A pesquisa analisou dados de 4.280 adolescentes e seus responsáveis em quatro cidades paulistas, com idade média dos jovens de 14,7 anos. Os achados reforçam a importância de estratégias de prevenção que envolvam toda a família, com foco em fortalecer os laços e a comunicação. Conforme informação divulgada pela Agência FAPESP, os dados foram coletados entre 2023 e 2024.
O estilo parental autoritativo como escudo protetor
O principal achado da pesquisa aponta que o estilo parental “autoritativo”, caracterizado por uma combinação de vínculo, presença, diálogo aberto e regras claras de conduta, é o mais eficaz na prevenção do consumo de álcool e drogas. Esse modelo parental, que equilibra acolhimento com monitoramento, demonstrou ser um fator de proteção significativo.
Em contrapartida, os estilos parentais “permissivo” e “negligente” não apresentaram efeitos protetores contra o uso de substâncias pelos jovens. O estilo “autoritário” também mostrou alguma redução de risco, mas com menor impacto comparado ao autoritativo, especialmente em relação ao álcool.
O peso do exemplo: o impacto do consumo dos pais
A pesquisa evidenciou que o consumo de álcool pelos pais está associado a uma probabilidade de 24% de uso de bebidas alcoólicas pelos filhos e 6% para o uso de duas ou mais drogas. Quando os responsáveis consomem múltiplas substâncias, esses riscos aumentam para 17% e 28%, respectivamente.
Um dado alarmante é que o maior preditor de abstinência entre os jovens é o não uso de substâncias pelos responsáveis. “Quando eles são abstinentes, 89% dos adolescentes também não usam nem álcool nem outras drogas lícitas ou ilícitas”, afirma a professora Zila Sanchez, autora principal do artigo e coordenadora do Núcleo de Pesquisa em Prevenção ao Uso de Álcool e outras Drogas (Previna) da Unifesp.
Estratégias de prevenção e políticas públicas
O estudo faz parte de um projeto maior financiado pela Fapesp, que visa investigar estratégias comunitárias eficazes de prevenção ao uso de álcool por adolescentes em municípios de pequeno porte no interior de São Paulo. A iniciativa busca gerar evidências científicas para orientar políticas públicas e programas de prevenção.
A professora Sanchez ressalta que, mesmo com boas práticas educativas, o consumo frequente e banalizado de álcool pelos responsáveis “se traduz em maior risco, independentemente do vínculo afetivo existente”. Isso reforça a necessidade de cautela e conscientização sobre a naturalização do consumo dentro de casa.
Consumo de álcool entre jovens no Brasil: um panorama preocupante
No Brasil, o álcool é um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. Estudos indicam que retardar o início do uso entre jovens é uma das estratégias mais eficazes para diminuir o consumo futuro e os danos associados. Apesar da proibição da venda para menores de 18 anos, dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) mostram que mais da metade da população experimentou álcool antes dessa idade.
O Lenad III também revelou que cerca de 3,2 milhões de adolescentes de 14 a 17 anos já consumiram álcool em algum momento da vida. Em relação à maconha, aproximadamente 1 milhão de adolescentes já experimentaram. A pesquisa da Unifesp, ao focar nos estilos parentais, oferece um caminho promissor para a prevenção, atuando diretamente no ambiente familiar e na influência dos pais sobre os filhos.
