Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026 às 07:43
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Obra ‘O Barco’ no Sesc Pompeia Revela Cicatrizes do Tráfico de Escravizados e Ecoa Violência Atual

O Barco, no Sesc Pompeia, expõe a brutalidade do tráfico transatlântico de escravizados e suas reverberações contemporâneas.

A instalação artística ‘O Barco’, da renomada artista portuguesa Grada Kilomba, chegou ao Sesc Pompeia, em São Paulo, nesta terça-feira (22), trazendo à tona as profundas marcas deixadas pelo tráfico transatlântico de africanos escravizados. Considerado pela Organização das Nações Unidas como o crime mais grave já cometido contra a humanidade, o evento histórico é abordado pela obra de forma visceral e provocativa.

Durante séculos, milhões de africanos foram sequestrados, vendidos como mercadorias e submetidos a condições desumanas em colônias europeias. O Brasil, principal destino dessa tragédia, recebeu mais de 4,8 milhões de pessoas escravizadas através de uma violência extrema em ‘navios negreiros’.

A obra de Kilomba lança um questionamento impactante: o que o fundo do oceano nos revelaria se fosse esvaziado de água hoje? A artista busca confrontar a narrativa glorificada de descobrimentos e expansão, expondo a realidade sombria e violenta que os navios transportavam. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, Kilomba explica que a instalação busca mostrar o que estava no fundo de muitos barcos que aparecem em monumentos que glorificam uma história de forma romântica e gloriosa.

A Arquitetura da Dor e da Memória

Composta por 134 blocos de madeira queimada, distribuídos em uma área de 220 metros quadrados, ‘O Barco’ reproduz a silhueta do fundo de uma grande embarcação. O objetivo é evidenciar a arquitetura dos porões dos navios negreiros, projetados para confinar os corpos de milhões de africanos escravizados em espaços mínimos e insalubres. A peça é fruto de extensa pesquisa da artista em botânica, história e nas travessias transatlânticas.

Um Eco da Tragédia de Antígona e a Violência Cíclica

A obra também se inspira na tragédia grega de Antígona, que questiona quem tem o direito de ser lembrado e quem é proibido de ter seu luto reconhecido. Kilomba relaciona essa temática à exclusão histórica de narrativas e memórias, especialmente as de povos colonizados. “Se esvaziássemos a água, o oceano e a terra em si iriam revelar uma série de trilhões de passagens de corpos humanos, não só no passado, mas no presente, em uma repetição da violência cíclica”, afirma a artista.

O Oceano Como Cemitério e a Persistência da Violência

Para Grada Kilomba, o oceano se tornou um vasto espaço de sepultamento para vidas perdidas, não apenas devido à escravização e ao colonialismo, mas também a guerras, mudanças climáticas e migrações forçadas. A artista ressalta que múltiplos barcos atualmente continuam a atravessar águas globais em busca de refúgio, e os mesmos corpos acabam no fundo do mar. A obra, mesmo adaptada para o espaço do Sesc Pompeia, carrega poemas gravados em dourado em 18 blocos centrais, traduzidos para diversos idiomas, incluindo iorubá e português, que ecoam a dor e o esquecimento. “Esta obra é o inconsciente da nossa história”, declara Kilomba, enfatizando a importância de trabalhar o invisível e o apagado no imaginário coletivo.

Itinerância e Reflexão Contínua

Exibida anteriormente em Lisboa, Londres e no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, ‘O Barco’ segue em itinerância pelo Brasil, promovendo um diálogo contínuo sobre a história da escravidão e suas consequências. No Sesc Pompeia, a instalação está acompanhada de outras obras de Grada Kilomba, como a videoinstalação ‘Opera to a Black Venus’ e a instalação ‘Compressed Time’. A exposição gratuita permanecerá em cartaz até 25 de outubro.

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