Domingo, 02 de Agosto de 2026 às 19:07
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O que o pai come pode pesar no bebê: Ultraprocessados paternos ligam alerta para saúde do recém-nascido

Dieta do pai: um fator surpreendente para o peso do bebê ao nascer

A saúde do bebê começa muito antes do nascimento, e um estudo recente lança luz sobre um aspecto muitas vezes negligenciado: a influência da alimentação paterna. A dieta do pai, especialmente o consumo de alimentos ultraprocessados, pode ter um impacto significativo no peso e na composição corporal do recém-nascido, com implicações que se estendem pela vida adulta.

Pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) conduziram uma análise com 43 grupos de famílias atendidas na rede pública de saúde. Os resultados apontam para uma correlação direta entre o alto consumo de ultraprocessados pelos pais e um maior peso ao nascer dos bebês, além de um acúmulo de gordura em regiões específicas, como a coxa e a área suprailíaca.

Essas descobertas, publicadas na revista Nutrition Research, desafiam a visão tradicional que foca predominantemente na saúde materna. O estudo é o primeiro a demonstrar em humanos a associação entre a ingestão paterna de ultraprocessados e a composição corporal do recém-nascido. Conforme informação divulgada pela FMRP-USP, quanto maior o consumo de ultraprocessados pelos pais, maior o peso ao nascer e o acúmulo de gordura nos bebês, fatores de risco para doenças cardiovasculares e metabólicas na vida adulta.

O que são ultraprocessados e por que preocupam?

Alimentos ultraprocessados são formulações industriais criadas majoritariamente a partir de substâncias extraídas de alimentos, aditivos químicos sintéticos e com pouco ou nenhum alimento inteiro em sua composição. Exemplos comuns incluem salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, refrigerantes e embutidos. Estes produtos, muitas vezes ricos em açúcares, gorduras e sódio, são um pilar na dieta de muitos brasileiros.

A pesquisa sugere que o consumo desses alimentos pelos pais pode afetar a formação dos espermatozoides antes mesmo da concepção. Uma dieta rica em ultraprocessados pode criar um ambiente pró-inflamatório no organismo, prejudicando a qualidade do esperma e alterando a expressão de genes que serão transmitidos ao bebê, um processo conhecido como epigenética.

Epigenética: como a dieta do pai pode ‘ligar’ ou ‘desligar’ genes no bebê

A epigenética explica como os hábitos alimentares do pai podem influenciar a atividade dos genes do futuro filho. Um dos genes estudados é o IGF-II, crucial para o crescimento fetal e transmitido pela cópia herdada do pai. Estudos anteriores já indicavam que a dieta paterna pode modificar bioquimicamente esse gene no esperma, através de um processo chamado metilação, impactando o desenvolvimento fetal.

Mariana Rinaldi Carvalho, coautora do estudo, explica que a metilação envolve a inclusão de uma molécula química, o grupo metil, em uma região específica do gene. Essa modificação pode alterar a forma como o gene funciona, influenciando diretamente o desenvolvimento do feto e, consequentemente, a saúde do bebê ao nascer.

Dieta materna versus paterna: efeitos distintos

O estudo também comparou os efeitos da dieta materna e paterna. Enquanto o consumo paterno de ultraprocessados esteve associado a um maior peso ao nascer, a dieta materna com esses mesmos alimentos, no início da gestação (até a 16ª semana), foi ligada a um menor peso, menor altura e menor circunferência da cabeça do bebê. Acredita-se que o impacto materno possa estar relacionado à formação da placenta, um órgão vital dependente de muitos nutrientes, que são escassos em ultraprocessados.

Daniela Sartorelli, coordenadora da pesquisa, destaca a importância desses achados. “A alimentação e a saúde materna antes, durante e após o nascimento do bebê sempre receberam atenção, mas pouco se fala sobre o papel da alimentação paterna. Nosso estudo mostra que ela também importa muito para a saúde do bebê”, afirma a professora.

Peso ao nascer: um preditor de saúde para toda a vida

O peso do bebê ao nascer é um indicador fundamental para a saúde presente e futura. Bebês com baixo ou alto peso ao nascer têm maior risco de desenvolver doenças não transmissíveis na vida adulta, como complicações cardiovasculares, diabetes tipo 2 e certos tipos de câncer. Embora o estudo não tenha encontrado um aumento generalizado na adiposidade total, o acúmulo de gordura em regiões específicas já é um sinal de alerta.

Sartorelli ressalta que, em média, os ultraprocessados representaram 30% da energia total consumida pelos pais cujas dietas foram analisadas, com destaque para embutidos, bebidas açucaradas e biscoitos. Isso reforça a necessidade de atenção à qualidade da alimentação paterna antes da concepção, indo além da preocupação com o peso do pai.

Esta pesquisa pioneira, apesar de sua amostra ser pequena, abre um importante debate sobre a inclusão dos homens nas orientações de planejamento familiar e reforça que a qualidade da dieta paterna antes da concepção tem grande influência na saúde do bebê.

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