Domingo, 06 de Setembro de 2026 às 03:55
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Mulheres Indígenas: Guardiãs da Amazônia Exigem Protagonismo e Direitos na Luta Contra a Destruição do Bioma

Mulheres indígenas reivindicam protagonismo como guardiãs da Amazônia, exigindo voz ativa e recursos para proteger o bioma ameaçado.

Um manifesto contundente ecoou no TEDxAmazônia: “Mulheres em resistência, em defesa dos nossos corpos e dos nossos territórios. Que não sejam tocados, não sejam violados, não sejam mortos! A força da terra está dentro de nós.” Treze mulheres indígenas de diversos povos amazônicos encerraram a edição do evento, realizado pela primeira vez fora do Brasil, no Equador.

À frente do grupo, a anciã Catalina Chumpi, do povo Shuar, pediu às águas das cachoeiras que deem poder às suas “netas” para defender seus territórios. Este apelo reforça a mensagem de abertura do encontro, que homenageou os defensores da natureza assassinados. Domingos Peas, líder Shuar, solicitou um minuto de silêncio por essas vítimas.

Dados alarmantes da Global Witness revelam que a América Latina é o continente onde mais se matam defensores ambientais, com líderes indígenas sendo os mais vitimados. Em contrapartida, as populações que vivem na Amazônia são essenciais para sua preservação e precisam ter seu protagonismo garantido, defenderam palestrantes do evento. Conforme divulgado pela organização, a Amazônia enfrenta uma intersecção letal de violência e a necessidade urgente de proteção aos seus guardiões.

A Cosmovisão Indígena como Pilar da Preservação Ambiental

Patricia Gualinga, líder do povo Kichwa, defende a incorporação legal da cosmovisão indígena, que enxerga a natureza como um sujeito com direitos próprios, e não apenas como fonte de recursos. Ela descreve a “selva viva” como um ser com “memória, com alma, com direitos”.

“Para nós, a natureza sempre teve direitos. Por isso, os lugares mais bem cuidados estão nos territórios indígenas, porque nós entendemos que não somos os únicos habitantes do planeta”, afirmou Gualinga, integrante do Fórum Permanente das Nações Unidas para Questões Indígenas. A líder ressalta a importância de aprender a língua e a sabedoria milenar dos povos que compreendem a floresta como um ser vivo.

O Equador deu um passo histórico em 2008, ao reconhecer na Constituição que a natureza possui direitos equivalentes aos das pessoas. Essa mudança paradigmática resultou, por exemplo, na proibição da mineração na Floresta Los Cedros em 2024, por violar os direitos naturais do local.

Desafios na Aplicação dos Direitos e a Necessidade de Governança

Apesar dos avanços legais, como o reconhecimento dos direitos de rios na Colômbia e no Peru, o maior desafio reside na aplicação prática desses direitos. “Uma constituição não vai regenerar por si mesma uma floresta, uma sentença não vai sanear um rio. Nós precisamos de políticas públicas, de transformações profundas na economia global, de instituições firmes”, alertou Patricia Gualinga.

Diana Chavez, diretora do Fundo do Biocorredor Amazônico, reivindicou recursos e poder de decisão para os povos indígenas. Ela destacou que, no Equador, um fundo alimentado por mineração e petróleo existe há seis anos sem acesso direto aos povos indígenas, devido à burocracia e a normativas desenhadas “para” e não “com” eles.

Chavez enfatizou que menos de 1% do financiamento global para controle climático chega diretamente aos povos indígenas. Ela defende mecanismos de acesso direto e facilitado aos recursos, construídos em conjunto com as comunidades. “A consulta te coloca na sala de espera, a governança te coloca na mesa de decisão”, ressaltou.

Agroindústria Comunitária: Um Modelo de Desenvolvimento Sustentável

Mesmo sem recursos, os povos indígenas protegem a Amazônia com seus corpos e vidas, sendo arquitetos da conservação. Patricia Gualinga ressalta que a conservação não é inimiga do desenvolvimento sustentável, pois a convivência igualitária com a natureza é intrínseca ao modo de vida indígena.

Esthela Noteno, de origem Kichwa, compartilhou a experiência de sua comunidade. Após a contaminação ambiental por atividades petroleiras e a consequente perda de recursos, muitos moradores arrendaram suas terras para monoculturas, caindo em uma “armadilha” que agravou a situação. A escassez forçou a busca por alternativas.

Durante a pandemia, Esthela teve a ideia de revitalizar o uso da guayusa, planta nativa amazônica conhecida por suas propriedades. Sua família promovia “guayusadas”, onde idosos compartilhavam saberes e a conexão com a terra. Dessa tradição nasceu uma agroindústria comunitária de extrato de guayusa, que hoje emprega 12 famílias e produz milhares de garrafas por mês.

As folhas de guayusa são adquiridas de outras mulheres indígenas que as cultivam em sistemas agroflorestais, preservando a biodiversidade. “A guayusa representa o espírito da mulher, por isso respeitamos a sabedoria delas. Tendo um mercado justo para a guayusa, elas têm um incentivo real para manter a floresta em pé”, concluiu Esthela Noteno.

TEDxAmazônia: Um Alerta Global pela Floresta

A escolha do Equador para sediar o TEDxAmazônia, pela primeira vez fora do Brasil, ressalta a abrangência da floresta, que se estende por oito países. Verônica Reed, coorganizadora, destacou que a Amazônia começa nos glaciares andinos, conectando povos originários que habitavam a região muito antes da divisão política.

O evento reuniu 30 palestrantes, indígenas e não-indígenas, dedicados à conservação e pesquisa na Amazônia. Rodrigo Cunha, organizador, emitiu um alerta urgente: “Estamos em um ponto de não retorno. Estamos emitindo mais carbono que podemos absorver. Os indígenas enfrentam violência sem precedentes. Já estamos no limite.”

As próximas edições do TEDxAmazônia seguirão o revezamento internacional. Em junho de 2024, o evento ocorrerá em Belém (PA), e em 2028, há expectativa de retorno ao Equador.

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