Segunda-feira, 17 de Agosto de 2026 às 06:37
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Hipotireoidismo e Apneia do Sono: Estudo da Unifesp revela ligação surpreendente e o impacto do tratamento

Hipotireoidismo pode ser um vilão silencioso para a qualidade do seu sono, aumentando o risco de apneia

Você sabia que ter hipotireoidismo pode aumentar significativamente suas chances de sofrer com apneia do sono? Um estudo inovador realizado no Brasil lança luz sobre essa conexão, revelando que pessoas com a condição tireoidiana apresentam quadros mais frequentes e graves de interrupções respiratórias durante a noite.

A pesquisa, financiada pela FAPESP e conduzida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), analisou dados de mais de 700 paulistanos. Os resultados apontam para uma relação complexa entre a função da tireoide e a saúde do sono, sugerindo que o tratamento adequado do hipotireoidismo pode trazer benefícios inesperados para quem sofre com distúrbios respiratórios noturnos.

Entender essa interação é crucial para um diagnóstico e tratamento mais eficazes. A seguir, detalhamos as descobertas e o que elas significam para a saúde pública, conforme divulgado pelo estudo publicado na revista Sleep.

O que é Hipotireoidismo e Apneia do Sono?

O hipotireoidismo é uma condição em que a glândula tireoide, localizada no pescoço, não produz hormônios suficientes. Esses hormônios são vitais para regular funções essenciais como metabolismo, temperatura corporal e frequência cardíaca. Sintomas comuns incluem cansaço extremo, sonolência, ganho de peso e dificuldade de concentração.

Já a apneia obstrutiva do sono (AOS) é um distúrbio caracterizado pelo colapso repetitivo das vias aéreas superiores durante o sono. Isso causa paradas momentâneas na respiração, pequenas interrupções no sono e pode levar a ronco alto, sonolência diurna e um risco aumentado de doenças cardiovasculares.

Conexão Surpreendente: Hipotireoidismo Eleva o Risco de Apneia

O estudo da Unifesp revelou que 12,6% dos participantes apresentavam hipotireoidismo. Desses, impressionantes 49,5% sofriam com apneia obstrutiva do sono. Esses números são mais altos do que o esperado pela literatura médica, que geralmente aponta prevalências entre 30% e 40%.

“Esperávamos que a prevalência de apneia do sono fosse considerável entre pessoas com hipotireoidismo, mas o resultado foi mais elevado do que imaginávamos”, afirma Ellen Maria Sampaio Xerfan, primeira autora do estudo. Isso sugere uma ligação mais forte do que se pensava anteriormente entre as duas condições.

A pesquisa também indicou que quanto mais elevados os níveis de TSH (hormônio que avalia a função tireoidiana), maior a probabilidade de desenvolver formas mais graves de apneia. Essa descoberta reforça a influência direta da disfunção tireoidiana na saúde respiratória durante o sono.

Relação Bidirecional: Sono Ruim Também Afeta a Tireoide?

Um dos achados mais relevantes do estudo aponta para uma possível relação bidirecional entre hipotireoidismo e apneia do sono. Isso significa que, assim como o hipotireoidismo pode piorar a apneia, características associadas a uma pior qualidade do sono e à gravidade da apneia também podem estar ligadas a um maior risco de hipotireoidismo.

“O sono e a tireoide estão ligados a mecanismos fundamentais de homeostase. Existe uma interação complexa entre os sistemas, e tanto alterações de sono podem influenciar a regulação hormonal quanto disfunções da tireoide podem afetar a qualidade de sono”, explica a pesquisadora.

Essa interdependência destaca a importância de uma visão integrada na prática clínica. Muitas vezes, sintomas como cansaço ou alterações metabólicas podem ser sinais de um distúrbio do sono não diagnosticado, que por sua vez pode estar afetando a tireoide.

Tratamento do Hipotireoidismo Melhora a Qualidade do Sono

O estudo também investigou o impacto da reposição hormonal no tratamento do hipotireoidismo. Os resultados foram animadores: pacientes em tratamento dormiam, em média, 49 minutos a mais por noite e passavam cerca de 22 minutos adicionais em sono profundo (estágio N3).

“Essa fase do sono está relacionada a processos de reparação do organismo, consolidação da memória e recuperação tecidual. O fato de os pacientes tratados passarem mais tempo nesse estágio sugere um efeito positivo da reposição hormonal sobre a arquitetura do sono”, comenta Xerfan.

A reposição com levotiroxina, medicamento comum para o hipotireoidismo, parece auxiliar na regularização dos hormônios tireoidianos e na melhora da arquitetura do sono, contribuindo para uma melhor qualidade de vida.

Atenção às Condições Coexistentes e Riscos Cardiovasculares

É fundamental ressaltar que o tratamento do hipotireoidismo não substitui a avaliação e o tratamento específico da apneia do sono. Ambas as condições, quando não tratadas, aumentam o risco de doenças cardiovasculares.

A apneia causa quedas repetidas nos níveis de oxigênio, sobrecarregando o sistema cardiovascular. O hipotireoidismo, por sua vez, pode levar a alterações metabólicas e ganho de peso, outros fatores de risco. A coexistência dessas duas condições pode potencializar esses perigos.

As pesquisadoras recomendam que profissionais de saúde considerem a investigação da função tireoidiana em pacientes com apneia do sono e, inversamente, avaliem possíveis distúrbios do sono em pessoas com hipotireoidismo. O diagnóstico e tratamento precoces são essenciais para melhorar a qualidade de vida e reduzir riscos à saúde.

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