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Haddad: Classe dominante vê Estado como ‘dela’, não ‘nossa’, e fragiliza democracia brasileira

Haddad critica visão da elite sobre o Estado e alerta para fragilidade democrática no Brasil

A classe dominante brasileira enxerga o Estado como uma posse particular, e não como um patrimônio coletivo. Essa percepção, segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, é um problema histórico que compromete a solidez da democracia no país.

A declaração foi feita durante o lançamento de seu livro, “Capitalismo Superindustrial”, em São Paulo. Na ocasião, Haddad participou de um debate mediado por Lilia Schwarcz, com a presença de Celso Rocha de Barros, aprofundando as reflexões sobre a estrutura de poder no Brasil.

Para o ministro, essa visão elitista do Estado remonta à própria fundação da República, com consequências que se estendem até os dias atuais, impactando diretamente a saúde democrática e a busca por um país mais equitativo.

A herança histórica da República: do Estado ‘deles’ ao Estado ‘nosso’

Fernando Haddad apresentou uma tese provocativa sobre a origem dessa mentalidade: a de que o Estado brasileiro foi entregue à classe agrária como uma forma de indenização após a abolição da escravatura. Ele contextualizou que o movimento republicano ganhou força logo após a assinatura da Lei Áurea em 1888, culminando no sucesso da Proclamação da República em 1889.

Segundo Haddad, a vitória republicana resultou na substituição da antiga classe dirigente por uma nova, que passou a administrar o Estado como se fosse de sua propriedade exclusiva. “Nós estamos com esse problema até hoje”, afirmou o ministro, destacando a persistência dessa dinâmica ao longo do tempo.

Essa configuração histórica, na visão do ministro, leva a reações imediatas quando o status quo é questionado. Ele observou que qualquer tentativa de alteração em instâncias de poder estabelecidas encontra forte resistência, o que torna a democracia brasileira particularmente delicada e vulnerável.

Democracia sob tensão e o ‘acordão’ que limita mudanças

O ministro Haddad ressaltou que a democracia, por sua natureza, implica a contestação do status quo. No entanto, no Brasil, essa contestação frequentemente esbarra em um “acordão” estabelecido, muitas vezes sob a influência de setores como as Forças Armadas. Quando esse equilíbrio é desafiado, a resposta é rápida e intensa.

“Você não pode tocar nisso, você não pode tocar em nenhuma instância”, explicou Haddad, ilustrando a dificuldade de promover reformas significativas em um sistema onde os poderes estabelecidos se sentem ameaçados. Essa rigidez dificulta o avanço social e a redução das desigualdades.

“Por isso que a democracia no Brasil é tão problemática e tão frágil, porque a democracia é a contestação desse status quo. E, quando ela estica a corda, a ruptura institucional pode acontecer”, concluiu o ministro, alertando para os riscos de instabilidade decorrentes da resistência à mudança.

O livro ‘Capitalismo Superindustrial’ e a crescente desigualdade

O lançamento de “Capitalismo Superindustrial” marca a discussão sobre as transformações globais que levaram ao modelo econômico atual. Haddad, em sua obra, analisa a ascensão do capitalismo superindustrial, caracterizado pelo aumento da desigualdade e da competição.

O livro aborda temas como a acumulação primitiva de capital em países periféricos, a valorização do conhecimento como motor de produção e as novas configurações de classe. O ministro prevê que a desigualdade social continuará a se acentuar se não houver intervenção estatal para mitigar os efeitos do desenvolvimento capitalista.

“Deixada à própria sorte, essa dinâmica leva a uma desigualdade absoluta. E quando isso acontece, você não está mais falando de diferença, você está falando de contradição e de processos contraditórios. E eu entendo que nós estamos nesse momento, nessa fase, em que a contradição está se impondo”, alertou Haddad, indicando um cenário de tensões sociais crescentes.

Análise de processos históricos e a ascensão da China

A obra de Haddad também mergulha em estudos de economia política e no sistema soviético, realizados nos anos 1980 e 1990. Esses estudos foram revisados e ampliados para discutir os desafios impostos pela ascensão da China como potência global. O objetivo é entender os padrões de acumulação primitiva de capital em diferentes regiões do mundo.

Haddad compara os processos históricos de acumulação primitiva, como a escravidão nas Américas e a servidão na Europa Oriental, com as revoluções no Oriente. Ele destaca que as revoluções orientais foram antissistêmicas e antiimperialistas, com o despotismo e a violência estatal servindo a propósitos industrializantes.

“É curioso que, do ponto de vista interno, eram formas ultra violentas e coercitivas de acumulação de capital, mas do ponto de vista externo, tinha uma potência antissistêmica que apaixonava os povos em busca de liberdade e de emancipação nacional, e não de emancipação humana. Ou seja, nós estamos falando, sim, de uma revolução, mas não de uma revolução socialista e isso faz muita diferença”, explicou o ministro. Ele avalia que, embora os objetivos revolucionários de emancipação humana não tenham sido plenamente atingidos, houve avanços significativos no desenvolvimento das forças produtivas nessas sociedades.

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