Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026 às 18:33
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Guimarães Rosa: Escritor visionário que já alertava sobre a devastação do Cerrado há 70 anos

A visão de Guimarães Rosa sobre os riscos ao Cerrado no Dia Nacional do Bioma

Em 1952, o renomado escritor João Guimarães Rosa embarcou em uma jornada por 240 quilômetros do Cerrado mineiro, entre Três Marias e Araçaí. Essa expedição, que inspirou obras-primas como “Grande Sertão: Veredas” e “Corpo de Baile”, ambas celebrando 70 anos em 2024, já revelava as preocupações do autor com a degradação ambiental.

Rosa não via apenas a beleza natural, mas também os sinais de alerta. Ele registrou em suas cadernetas a presença de eucaliptos e as incipientes siderúrgicas, que já ameaçavam a paisagem. Essa percepção pioneira sobre os impactos humanos no Cerrado é resgatada no Dia Nacional do Cerrado.

“Ele viu que o forno das siderúrgicas era alimentado com o carvão oriundo do Cerrado. Hoje a gente sabe que a devastação é feita pelo agronegócio”, explica a professora Mônica Meyer, da UFMG. A pesquisadora, autora de “Ser-tão natureza”, destaca a riqueza dessas anotações.

O Cerrado como personagem vivo nas obras de Rosa

Meyer ressalta que Guimarães Rosa elevou o Cerrado de mero cenário a um verdadeiro personagem em suas narrativas. Essa abordagem demonstra a profunda conexão entre o ser humano e a natureza, onde um não existe dissociado do outro.

A viagem de 1952, descrita em “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”, oferece um “inventário do Cerrado na década de 1950”, segundo a professora. As obras detalham os rios, a fauna, a flora e a vida das pessoas, entrelaçando natureza e cultura de forma indissociável.

“Grande Sertão: Veredas”, um romance aquático e de defesa ambiental

A força descritiva de Rosa é notável ao retratar elementos como o rio e as raízes pivotantes do Cerrado, essenciais para a absorção de água. “O Grande Sertão: Veredas é um romance aquático”, define Meyer, evidenciando a importância da água no bioma e na obra.

Os protagonistas, Riobaldo e Diadorim, vivenciam as transformações naturais do Cerrado, enfrentando as estações de chuva e seca. A natureza, portanto, atua como uma personagem relevante, em sintonia com os demais seres humanos e elementos da trama.

A sutileza de Rosa na defesa da natureza

“Grande Sertão: Veredas” transcende o status de obra literária para se tornar um manifesto em defesa da natureza, mesmo sem discursos explícitos. A personagem Diadorim, por exemplo, incentiva Riobaldo a uma nova forma de contemplação do bioma.

Um momento marcante ocorre quando Diadorim aponta para o passarinho manuelzinho-da-crôa (batuíra-de-coleira), ensinando Riobaldo a apreciar sua beleza e a do ambiente. O romance é repleto de registros da fauna, flora e das águas, convidando o leitor a uma nova perspectiva.

Um convite à contemplação e à educação ambiental

Guimarães Rosa nos instiga a olhar para a natureza não como um recurso a ser explorado, mas como um “espaço vivo”, em constante transformação, do qual fazemos parte. Essa imersão em cantos de pássaros, cores de árvores e aromas de flores é um convite à reflexão.

A obra se configura como um “material riquíssimo para trabalhar aspectos da educação ambiental”, sendo uma “grande enciclopédia do Cerrado”. A visão de Rosa, que já denunciava os perigos ao bioma há sete décadas, ecoa com ainda mais força nos dias atuais, diante dos desafios impostos pelo agronegócio.

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