USP lança modelo pioneiro para tratar “Covid Longa” com 15 especialidades médicas integradas.
A pandemia de Covid-19 revelou uma complexidade que vai além da fase aguda da infecção. Pacientes recuperados continuam a enfrentar uma série de sintomas persistentes, como fadiga crônica, tonturas, dores no corpo e queda de cabelo, configurando o quadro conhecido como “Covid Longa”.
Para muitos, o caminho para o diagnóstico e tratamento tem sido uma “peregrinação” por diversos consultórios, com exames desconexos e falta de comunicação entre especialistas. Essa jornada desafiadora motivou cientistas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) a repensar a abordagem científica.
Eles desenvolveram um modelo interdisciplinar inovador, focado em olhar para o paciente de forma integral e conectar as diversas manifestações da doença. A iniciativa, descrita em artigo na revista Clinics, reúne 22 grupos de pesquisa de 15 especialidades médicas diferentes para investigar os efeitos de longo prazo da Covid-19, conforme divulgado pelo Jornal da USP.
Integração de Especialidades: Um Novo Paradigma para a Covid Longa
A complexidade sistêmica do coronavírus exigiu uma resposta igualmente sistêmica no pós-Covid. “Exigia atenção ao coração, ao pulmão, ao rim, mas, acima de tudo, às conexões entre eles”, explica a pesquisadora Laura Azevedo. O desafio era unificar métodos e definições entre diversas áreas médicas, algo complexo mesmo em centros de referência.
O modelo da USP conseguiu reunir 22 grupos de pesquisa e 15 especialidades. Os voluntários realizaram uma bateria completa de exames, incluindo tomografias, ecocardiogramas e avaliações cognitivas, em apenas dois dias de visitas presenciais. Ao todo, foram realizados aproximadamente 11 mil exames.
Otimização de Recursos e Conforto do Paciente
A chave do sucesso está na integração dos protocolos. Quando diferentes especialidades necessitavam de testes semelhantes, como caminhada ou análises de sangue, os procedimentos eram unificados. Isso significou que um único exame servia a múltiplos grupos de pesquisa, reduzindo o desperdício, otimizando a coleta de sangue e poupando tempo e desconforto aos participantes.
Essa estratégia demonstrou que é possível realizar uma investigação científica aprofundada sobre uma doença complexa sem sobrecarregar o paciente. A pesquisa, que integrou um estudo de coorte do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP, revelou que 83% dos pacientes ainda apresentavam pelo menos um sintoma de Covid Longa entre seis e 11 meses após a alta hospitalar.
Fluxo de Avaliação Abrangente e Tecnologias Avançadas
O acompanhamento dos pacientes foi estruturado em quatro momentos: teleconsulta inicial para coleta de dados e escalas de sintomas, primeira visita presencial para exames básicos e coleta de materiais, segunda visita presencial para exames mais complexos e, finalmente, uma sessão de feedback remoto para apresentar os resultados.
O acesso a tecnologias avançadas, como um tomógrafo com 320 detectores capaz de realizar exames com dupla energia, permitiu uma avaliação detalhada da perfusão pulmonar e a detecção de possíveis quadros de tromboembolismo pulmonar. “Foi um volume de exames ao qual os pacientes provavelmente não teriam acesso na rede pública”, destaca Laura Azevedo.
Foco em Eixos Transversais e Impacto em Políticas Públicas
O modelo interdisciplinar permitiu cruzar dados e focar em quatro grandes eixos transversais da Covid Longa: fadiga crônica, inflamação sistêmica, perda de função muscular e suscetibilidade genética. Todas as descobertas foram centralizadas em um banco de dados único para todos os cientistas do grupo.
A iniciativa, que envolve mais de 100 profissionais e contou com financiamento da Fapesp, visa não apenas diagnosticar, mas também trazer soluções reais para os pacientes. “Essa filosofia é muito forte no grupo, impulsionada principalmente pelo nosso pesquisador responsável, o professor Carlos Carvalho”, conclui Azevedo. O objetivo é gerar conhecimento que possa influenciar políticas públicas de saúde.
