Sábado, 17 de Outubro de 2026 às 23:19
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Cortes em Auxílios Sociais Podem Causar Retração Econômica Severa em Cidades do Interior: Estudo Revela Impacto Devastador

Estudo da USP Alerta para Retração Econômica em Municípios do Interior Devido a Cortes em Auxílios Sociais

A estabilidade econômica de milhares de cidades no interior do Brasil pode estar seriamente ameaçada. Um levantamento recente do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Universidade de São Paulo (USP), indica que cortes ou estagnação nos valores de benefícios sociais e previdenciários podem gerar uma retração econômica severa nesses municípios.

Esses auxílios, incluindo aposentadorias, o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), são vitais para a subsistência de muitas famílias. Em algumas das cidades mais vulneráveis, esses programas chegam a representar quase metade do orçamento das famílias de baixa renda, movimentando a economia local e garantindo a arrecadação municipal.

A pesquisa, lançada nesta semana, projeta um cenário preocupante para os próximos anos caso esses benefícios não sejam devidamente reajustados. A análise detalha os impactos que a falta de valorização real pode causar, afetando não apenas os beneficiários diretos, mas toda a cadeia produtiva e o comércio dessas localidades.

O Peso dos Benefícios Sociais na Economia Local

O estudo do Made/USP destaca que, dos 5.569 municípios brasileiros, aproximadamente 4 mil estão fora das regiões metropolitanas. Nesses locais, o peso das transferências públicas na economia é significativamente maior, chegando a ser o dobro do observado nos grandes centros urbanos. Um exemplo claro é o Ceará, onde os benefícios representam 22% da renda agregada na capital e região metropolitana, mas saltam para 40% nas cidades do interior.

A economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, explica a dinâmica: “Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”. Isso demonstra a importância crucial desses auxílios para a sobrevivência econômica dessas comunidades.

Projeções Alarmantes para os Próximos Anos

A pesquisa projetou os efeitos da evolução da renda dos benefícios sociais e previdenciários nas cidades do interior para o período de 2022 a 2025. Ao comparar um cenário de crescimento real para o BPC e aposentadorias com um cenário de congelamento total, como o observado entre 2019 e 2022, os resultados são contundentes.

Sem os reajustes adequados, a renda agregada do interior do país sofreria uma retração severa, ficando entre 6,8% e 10,8% abaixo do patamar que seria alcançado com a valorização real dos benefícios. “Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”, avalia Nassif.

Impacto Variado por Região e o Risco de Aumento da Pobreza

Os cenários mais críticos de queda na renda agregada são projetados para o interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a renda total poderia cair entre 17% e 18% sem o ritmo atual de aumento dos benefícios. Estados como Amazonas, Sergipe e Pernambuco poderiam registrar perdas na casa dos 15%. Mesmo em regiões com menor dependência, como São Paulo e Rio Grande do Sul, a retração seria de até 6,5%.

Além do impacto econômico, o estudo ressalta o papel decisivo dos benefícios no combate à pobreza. “Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirma Nassif. Simulações indicam que a ausência de ganhos reais nos benefícios entre 2022 e 2025 poderia ter empurrado cerca de 2,7 milhões de pessoas para a pobreza em municípios fora das regiões metropolitanas, sendo 2,4 milhões delas para a extrema pobreza.

Os estados da Bahia, São Paulo e Minas Gerais liderariam o aumento absoluto de pessoas em situação de pobreza, com até 336 mil, 263 mil e 251 mil pessoas a mais, respectivamente. “Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, observa Nassif. Ela conclui que “manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”.

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