China Impulsiona Cooperação Global Através de Grandes Rios, Convidando o Mundo para Debater Civilizações e Meio Ambiente
A China está promovendo uma ambiciosa iniciativa para conectar diferentes povos e culturas, utilizando a relação intrínseca das populações com os grandes rios do planeta como fio condutor. O rio Yangtzé, vital para a economia chinesa, serviu como palco para encontros com representantes de países cujas vidas são moldadas por rios como o Amazonas, Nilo, Danúbio e Mississippi.
O Brasil teve uma participação de destaque na 4ª edição do Fórum da Civilização do Rio Yangtzé, realizado em Chongqing. O evento faz parte da Estratégia para a Civilização Global do presidente Xi Jinping, lançada em março de 2023, que visa promover “valores comuns” da humanidade por meio da cooperação internacional. A Agência Brasil acompanhou o fórum, que reuniu especialistas, jornalistas e artistas de quase 20 países.
Sob o tema “Conectando Rios e Mares, Compartilhando a Sabedoria das Civilizações”, o encontro buscou não apenas celebrar a história e a cultura ligadas aos rios, mas também projetar a Rota Econômica do Rio Yangtzé. A iniciativa, que contou com uma viagem de cruzeiro pelo rio, visita a templos e fortalezas históricas, ressalta a importância de se olhar para a origem do desenvolvimento humano em torno desses cursos d’água, um aspecto que, segundo estudiosos chineses, tem sido negligenciado pela historiografia ocidental. Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, o evento contou com o apoio do Comitê Municipal do Partido Comunista Chinês em Chongqing e da Academia Chinesa de Ciências Sociais.
Yangtzé: Berço da Civilização Chinesa e Espelho de Desafios Ambientais
O rio Yangtzé, com seus 6,3 mil quilômetros de extensão, é um dos berços da civilização chinesa, conectando o interior do país ao estratégico porto de Xangai. Pesquisas arqueológicas recentes revelam que a agricultura do arroz na região remonta a quase 10 mil anos, desafiando a predominância de narrativas ocidentais focadas na Mesopotâmia e no Nilo. Li Guoqiang, professor da Academia Chinesa de Ciências Sociais, destacou que o centro de gravidade da pesquisa sobre civilizações fluviais tem se inclinado historicamente para o Ocidente.
Apesar de sua importância histórica, o Yangtzé sofreu com o rápido desenvolvimento econômico da China nas últimas décadas. A extinção do golfinho Baiji em 2006 é um triste exemplo dos impactos ambientais. No entanto, a China tem buscado reverter esse quadro, implementando a doutrina da **civilização ecológica**, que concilia desenvolvimento econômico com preservação ambiental. A proibição da pesca profissional por dez anos e projetos de recuperação do rio são medidas nesse sentido.
Intercâmbio de Saberes: Nilo e Amazonas Compartilham Experiências
Especialistas egípcios presentes no fórum compartilharam experiências valiosas, como o modelo de medição das águas do Nilo para antecipar secas e enchentes. Alaa Hussein Mahmoud Menshawy, professor da Universidade de Luxor, ressaltou a importância desse intercâmbio cultural para enfrentar desafios globais como poluição, mudanças climáticas e crescimento populacional, que afetam rios e comunidades.
A professora brasileira Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), participou do evento e destacou a necessidade de o Brasil aprender com a experiência chinesa para evitar erros na exploração econômica da Amazônia. Ela enfatizou a importância de modelos de desenvolvimento que conservem a floresta, citando exemplos de economias baseadas em produtos amazônicos como açaí e a castanha-do-Brasil, que geram recursos significativos sem a necessidade de atividades predatórias.
Documentário “Quando o Yangtzé encontra o Amazonas” Une Culturas Fluviais
Como parte da iniciativa de conectar histórias de povos ribeirinhos, uma equipe de mídia chinesa produziu o documentário “Quando o Yangtzé encontra o Amazonas”. A produtora Vivian Yan expressou seu fascínio pela diversidade e vitalidade do Rio Amazonas e das comunidades que o habitam, ressaltando a profunda ligação entre o cotidiano dessas pessoas e o meio ambiente.
O documentário busca evidenciar as semelhanças e diferenças entre as civilizações que floresceram às margens desses dois gigantes fluviais. A expectativa é que essa troca cultural inspire novas formas de colaboração e conscientização sobre a importância da preservação dos grandes rios do mundo e das comunidades que deles dependem.
Brasil Busca Equilíbrio na Amazônia: Lições da China e Vozes Locais
O pesquisador brasileiro André Pereira Reinnert Tokarski ressaltou a necessidade de encontrar um “caminho do meio” para a Amazônia, equilibrando exploração econômica e preservação ambiental. Ele criticou a polarização entre o desenvolvimento predatório e a rejeição a qualquer atividade econômica na região, argumentando que a miséria local também representa um impacto socioambiental negativo.
Vera Maria alertou que todos os mamíferos aquáticos do Rio Amazonas estão classificados como ameaçados, reforçando a urgência de políticas de conservação eficazes. A professora brasileira espera que o Brasil possa aprender com os erros e acertos da China, evitando chegar a um “ponto extremo de destruição” para então tentar recuperar o que foi perdido, priorizando economias sustentáveis que mantenham a floresta em pé.
