Quinta-feira, 27 de Agosto de 2026 às 13:05
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Candidaturas Negras em Eleições 2026: Crescimento Lento e Desafios no Financiamento Eleitoral

Candidaturas Negras se Aproximam do Perfil Racial Brasileiro, Mas Avanços Divergem por Gênero e Financiamento

Um levantamento sobre as candidaturas para as Eleições de 2026 aponta uma ligeira mudança no perfil racial dos participantes. Pela primeira vez, o número de candidatos negros, incluindo pretos e pardos, alcançou 49,8% do total, aproximando-se dos 55,5% que este grupo representa na população brasileira. Contudo, a análise revela nuances importantes, com avanços desiguais e novos obstáculos no acesso a recursos.

A pesquisa, realizada pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e pela consultoria CommonData, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), identificou que, até 16 de agosto, de um total de 20.448 candidaturas válidas, 10.191 autodeclararam-se pretas ou pardas. Este número representa um salto significativo em relação a 2022, quando a participação de candidatos negros era de 35,5%.

Apesar do aumento na autodeclaração racial, com 338 candidatos migrando de branco para pardo e seis para preto, a análise completa dos resultados, prevista para o final de setembro, promete trazer mais clareza sobre a dinâmica da representatividade. Conforme aponta Carmela Zigoni, assessora do Inesc, a ampliação da plataforma racial por parte de candidatos, inclusive de espectro político mais à direita, pode ser uma estratégia para atrair eleitores negros. No entanto, a especialista alerta para um cenário de recursos mais desafiador.

Mudanças na Distribuição de Recursos Eleitorais Preocupam

Um ponto crítico destacado pela pesquisa é a alteração na norma de distribuição de recursos para candidaturas. A Emenda Constitucional nº 133, de 2024, mudou a forma como as cotas são aplicadas, impactando diretamente o financiamento de campanhas. Anteriormente, um partido com 50% de candidaturas negras deveria destinar metade dos recursos a elas. Agora, mesmo com a mesma proporção de candidaturas, o percentual de recursos é limitado a 30%.

Carmela Zigoni ressalta que a mera presença nas listas partidárias precisa ser analisada em conjunto com o acesso efetivo a financiamento, estrutura de campanha e tempo de propaganda. A assessora também enfatiza a importância da atuação de bancas de heteroidentificação para coibir fraudes nas cotas raciais, garantindo que os recursos e as oportunidades cheguem a quem realmente se destina.

Gênero e Raça: Um Cenário de Avanços Desiguais

Quando a análise cruza raça e gênero, o cenário de avanços se mostra ainda mais heterogêneo. Os homens brancos continuam sendo o maior grupo isolado, com 6.688 candidaturas (32,7%). Em seguida, aparecem homens pardos (4.917, ou 24,1%), mulheres brancas (3.271, ou 16%) e mulheres pardas (2.485, ou 12,2%).

A participação de mulheres pretas soma 1.234 candidaturas (6%), enquanto homens pretos contabilizam 1.555 (7,6%). A participação geral de mulheres nas candidaturas cresceu apenas 1%, e a de mulheres negras avançou apenas 0,5%. Entre as 7.116 mulheres candidatas, 52,2% são negras (3.719), sendo 2.485 pardas e 1.234 pretas. Essas mulheres negras representam 18,2% de todas as candidaturas, um leve aumento em relação a 2022 (17,3%).

Por outro lado, a participação de homens negros recuou de 32,3% para 31,7%. Carmela Zigoni aponta que esses números indicam avanços muito discretos na representatividade geral e retrocessos em aspectos específicos, como a redução de mulheres candidatas ao Senado e de homens negros concorrendo. A especialista conclui que os dados demonstram uma desaceleração no ritmo de crescimento da participação negra nos processos eleitorais, o que pode ser reflexo de entraves no estímulo a essa participação.

Representatividade Indígena e Quilombola em Crescimento

O levantamento também trouxe dados sobre a participação de grupos minorizados. Foram registradas 191 candidaturas de pessoas autodeclaradas indígenas, o que representa 0,9% do total, um aumento em relação às 172 de 2022 (0,6%). Deste total, 84 candidaturas são de mulheres indígenas.

As candidaturas quilombolas somam 212, equivalentes a 1% do total. A distribuição por gênero é quase equilibrada, com 110 homens (51,9%) e 102 mulheres (48,1%). O grupo quilombola é majoritariamente negro, com 140 pessoas pretas (66%) e 43 pardas (20,3%), reforçando a importância de políticas afirmativas para esses segmentos.

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