Segunda-feira, 28 de Setembro de 2026 às 07:08
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Alívio Nacional: Proibição das Bets Traz Esperança a Vítimas de Dívidas e Dependência no Brasil

A proibição das empresas de apostas online, conhecidas como bets, representa um marco crucial na tentativa de frear o avanço da dependência e do endividamento que assolam muitos brasileiros. A notícia, recebida com alívio por muitos, como Kaio*, de 42 anos, sinaliza um possível recomeço após perdas devastadoras. Ele, que chegou a perder carro, casa e emprego devido às dívidas de jogo, agora busca reconstruir sua vida em um modesto dormitório, temendo pela segurança e afastado de sua família.

A jornada de Kaio*, marcada por seis anos de vício em jogos, o levou a buscar ajuda profissional. Atualmente, ele participa de grupos terapêuticos e consultas médicas em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde faz uso de medicação diária para lidar com o transtorno.

A Agência Brasil tem acompanhado de perto o crescente problema do empobrecimento e da dependência gerados pelas bets, publicando diversas reportagens sobre o tema. A recente Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, revogou o capítulo 5 da Lei 13.756, de 2018, que havia aprovado as apostas, mas sua regulamentação só ocorreu em dezembro de 2023, deixando as plataformas operando sem regras claras por pelo menos cinco anos.

A regulamentação tardia trouxe consigo a exigência de avisos sobre os riscos do jogo, mas, para muitos, as regras não foram seguidas. A psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que pessoas em vulnerabilidade social e econômica foram alvos fáceis da desinformação e da publicidade enganosa. Anúncios prometiam as bets como uma forma de complementar renda, atraindo indivíduos que buscavam retornos rápidos, o que se tornou um cenário perigoso.

Perdas Bilionárias e Falta de Fiscalização

Os números divulgados no Boletim Fiscal dos Estados pelo Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) são alarmantes. Apenas no ano passado, as famílias brasileiras perderam cerca de R$ 62,5 bilhões para as bets, uma média de R$ 4,7 bilhões por mês. Essas perdas representam 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, considerando as transações via Pix, que movimentaram quase R$ 351 bilhões no mesmo período.

O advogado Júlio Leone aponta que a lei previa o bloqueio de acesso a usuários identificados como compulsivos, algo que, segundo ele, nunca ocorreu. Pelo contrário, as empresas continuaram a oferecer bônus e anúncios, incentivando os jogadores a continuar apostando e, consequentemente, a perderem ainda mais capital. Kaio* corrobora essa prática, relatando que seu celular recebia mensagens constantes das plataformas.

Adolescentes e a Vulnerabilidade do Cérebro em Desenvolvimento

A vulnerabilidade ao vício em apostas não poupa faixas etárias, e os adolescentes se mostram particularmente suscetíveis. Uma pesquisa realizada pela Frente Parlamentar Mista da Educação revelou que 20,4% dos estudantes do ensino fundamental e médio já fizeram apostas online. O estudo, que ouviu mais de 1.900 alunos, indicou que as apostas podem começar aos 11 anos, com 9,5% dos estudantes nessa faixa etária já tendo participado.

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o cérebro adolescente, ainda em desenvolvimento, tem o núcleo de prazer e dopamina funcionando em alta velocidade, enquanto as áreas de controle de impulso e avaliação de risco amadurecem mais tarde. Isso faz com que os jovens sintam intensamente o prazer de ganhar, mas tenham dificuldade em frear o impulso para a próxima aposta.

Sinais de Alerta e Busca por Ajuda Profissional

Profissionais de saúde observam em apostadores, independentemente da idade, sinais de desesperança, isolamento social, aumento do consumo de álcool e mudanças comportamentais significativas. A psiquiatra Katia Branco alerta que falas sobre morte ou desejo de não viver devem ser levadas a sério, indicando a necessidade de procura por ajuda profissional. A ideação suicida, muitas vezes motivada por prejuízos financeiros, requer atenção e manejo adequados.

A dependência em apostas online, facilitada pela acessibilidade 24 horas por dia, é comparada por Luiz Carlos*, integrante de Jogadores Anônimos, a ter um “cassino dentro do bolso”. Ele relata que, em sua época, era preciso sair de casa para apostar, mas hoje a facilidade é muito maior. A dependência é um mecanismo de recompensa, e muitas vezes o indivíduo não reconhece o problema, necessitando do apoio de familiares e amigos para buscar ajuda.

Em agosto, o Sistema Único de Saúde (SUS) já havia ampliado o número de teleatendimentos para pessoas com problemas relacionados a apostas online. Com a proibição das bets, o Ministério da Saúde anunciou um reforço nas políticas de busca ativa e acompanhamento, utilizando dados compartilhados por outros ministérios e pela Receita Federal para oferecer tratamento a apostadores contumazes.

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