Sexta-feira, 17 de Julho de 2026 às 08:23
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Morre Elza Berquó, a Mãe da Demografia Brasileira, aos 100 anos: Legado de Luta por Direitos e Democracia

Elza Berquó, figura central nos estudos demográficos brasileiros, faleceu em São Paulo aos 100 anos. Sua trajetória é marcada pela rigorosa análise de dados e um profundo compromisso com os direitos humanos e a democracia.

A demógrafa Elza Salvatori Berquó, uma das mentes mais brilhantes na compreensão do Brasil, nos deixou nesta quinta-feira (16). Sua partida aos 100 anos encerra uma era de contribuições inestimáveis para a ciência e para a sociedade brasileira.

Com formação inicial em Matemática, Elza Berquó se dedicou por décadas a desvendar as complexidades demográficas do país, analisando censos e dados populacionais com maestria. Sua atuação foi fundamental para entendermos as profundas transformações urbanas e sociais que moldaram o Brasil entre as décadas de 1960 e 2000.

Sua voz foi um pilar na defesa do acesso a métodos contraceptivos, do direito ao aborto e dos direitos reprodutivos, sempre pautada pela informação e pela consciência. Ao mesmo tempo, Elza Berquó abordou com persistência e rigor questões cruciais como a mortalidade infantil. Conforme destacou Jacqueline Pitanguy, fundadora da ONG Cepia Cidadania, em entrevista à Rádio Nacional, ela “trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”. As informações são de fontes divulgadas sobre o falecimento.

Trajetória Acadêmica e Fundações Essenciais

Nascida em Guaxupé (MG), Elza Berquó trilhou um caminho acadêmico notável. Formou-se em Matemática pela Universidade Católica de Campinas, obteve mestrado em Estatística pela USP em 1949 e especializou-se em Bioestatística na Columbia University, nos Estados Unidos, em 1950. Sua pesquisa de 1965, analisando o desenvolvimento da população paulista com base nos censos de 1940 e 1950, foi um marco em sua carreira.

Apesar de ter sido aposentada compulsoriamente da Faculdade de Saúde Pública da USP em 1968, sua força e visão a impulsionaram. No ano seguinte, em 1969, Elza Berquó foi peça-chave na fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Ela se uniu a outros intelectuais proeminentes, como Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e José Arthur Giannotti, em um momento em que muitos eram silenciados pela ditadura.

Legado na Unicamp e na Política Pública

O impacto de Elza Berquó na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) é imensurável. Conforme ressaltou José Marcos Cunha, ex-coordenador do Nepo-Unicamp, ela “é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira na área”. A demógrafa foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), que hoje leva seu nome em justa homenagem, desde 2014. O centenário de Elza foi celebrado pela instituição em outubro passado, reconhecendo sua trajetória e legado.

Gláucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo, descreveu o dia como “triste” pela perda de uma “mulher fantástica, uma cientista inspiradora”. Ela celebrou as conquistas de Elza, as pessoas que ela formou e as instituições que ajudou a criar.

Compromisso com os Direitos Humanos e a Democracia

Em 1995, Elza Berquó deu mais um passo importante ao fundar e presidir a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD), um órgão do governo federal crucial para assessorar decisões estratégicas na área. O atual presidente da CNPD, Richarlls Martins, enfatizou que Elza “acreditou profundamente no Brasil, contribuiu para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências”.

Eduardo Rios Neto, Acadêmico e colaborador de Elza na Associação Brasileira de Estudos Populacionais (ABEP), a saudou como “a mãe da demografia brasileira”. Ele destacou sua atuação excepcional no desenvolvimento de instituições relevantes, como a ABEP, o NEPO e a CNPD. Elza Berquó deixa um legado de conhecimento, luta por direitos e um profundo amor pela democracia e pelo Brasil.

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