A renovação democrata nas eleições de meio de mandato dos EUA traz à tona um partido mais diverso, com forte viés progressista, que se opõe às políticas de Donald Trump.
A recente vitória democrata nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, as Midterms, foi um marco significativo para o partido. O resultado evidenciou uma clara renovação em suas lideranças, com a ascensão de políticos jovens, pertencentes a minorias étnicas e religiosas, e com discursos abertamente progressistas.
Essa nova onda de representantes contrasta com a imagem desgastada que o Partido Democrata apresentava após a derrota para Donald Trump em 2024. Naquela ocasião, o partido era criticado por sua associação com elites econômicas e por um suposto distanciamento das pautas dos trabalhadores americanos.
A mudança de cenário foi impulsionada por uma nova geração de políticos que trazem consigo agendas focadas em justiça social, saúde universal e melhores condições de vida para a classe trabalhadora, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil.
Um novo rumo impulsionado por decepções passadas e agendas ousadas
De acordo com o doutor em ciência política Juliano Machado Pires, a má avaliação do Partido Democrata em 2024 derivou, em parte, da decepção com o governo de Barack Obama. Ele explica que a expectativa gerada por Obama não se traduziu em soluções concretas para a crise hipotecária de 2008, levando uma parcela da população a se sentir traída e com a sensação de que ambos os partidos falhavam em proteger os direitos econômicos dos cidadãos.
Nesse contexto, a professora de relações internacionais Camila Vidal, da UFSC, destaca que o pleito de 2026 elegeu um número expressivo de democratas que não pertencem à tradicional elite do partido. “São indivíduos que têm uma agenda muito mais progressista, em alguns casos até socialista, enfatizando melhores condições de vida para a classe trabalhadora, saúde universal e gratuita para todos”, comentou à Agência Brasil.
O resultado dessas eleições permitiu que o Partido Democrata conquistasse assentos no Senado e na Câmara em estados e distritos onde vinha perdendo nas últimas décadas, como no Texas. Isso fortaleceu a oposição a Donald Trump, com o Senado e a Câmara passando a ter maioria democrata.
Pioneiros quebrando barreiras e inspirando mudanças
Entre os nomes que se destacaram, está Keisha Lance Bottoms, a primeira mulher negra eleita governadora na história dos EUA, pelo estado da Geórgia. Deb Haaland tornou-se a primeira governadora indígena, eleita pelo Novo México, e Chris Papas, o primeiro senador abertamente homossexual, eleito por New Hampshire.
Em seu discurso de vitória, Keisha Lance Bottoms dedicou o triunfo às pessoas que enfrentam dificuldades de acesso a serviços de saúde e educação devido ao alto custo de vida nos EUA. “Esta vitória é para o cuidador que não tem condições de arcar com despesas de saúde e precisa que a Geórgia finalmente amplie o Medicare”, declarou.
O professor de história da Universidade de Brown, James N. Green, ressalta que a flexibilidade dos dirigentes partidários locais nos EUA contribuiu para essa renovação. “A diversidade do Partido Democrata deu essa flexibilidade de candidatos diversos, que podiam atrair uma base da população, combinada com uma política horrível do governo de Trump, que incentivou muitas pessoas a romper com ele e apoiar os democratas”, avaliou.
O evangelical progressista que desafia a hegemonia republicana
Outro nome de peso é James Talarico, eleito para o Senado pelo Texas, derrotando os republicanos após quase 40 anos. O Texas também elegeu sua primeira governadora latina, Gina Hinojosa, rompendo uma longa hegemonia republicana.
Aos 37 anos, James Talarico combina discurso religioso com a defesa dos mais necessitados e da justiça social. Filho de pastor e seminarista presbiteriano, ele rebateu críticas de Trump, afirmando: “O presidente dos EUA disse que eu insultei Jesus. Sabe o que insulta Jesus? Deixar os pobres sem assistência social enquanto corta impostos de bilionários.”
Talarico criticou duramente a política anti-imigração de Trump e o projeto que retirou fundos da saúde para cortar impostos dos mais ricos. Ele também atacou a plataforma republicana que, segundo ele, ataca minorias como transexuais, imigrantes e muçulmanos.
“A única minoria que está destruindo os Estados Unidos é a dos bilionários. Muitas das divisões neste estado e neste país são fabricadas por bilionários que querem que lutemos uns contra os outros, em vez de lutarmos contra eles”, afirmou Talarico.
Camila Vidal, da UFSC, vê em Talarico o resgate de uma tradição democrata que se perdeu desde o governo de Bill Clinton. “Vinda de um estado como o Texas, é bastante emblemático. Talarico traz de volta a religião e o cristianismo para o âmbito do trabalhador local, falando com essa classe empobrecida e gigantesca hoje em dia nos EUA. É uma grande surpresa”, comentou.
O primeiro muçulmano no Senado e a crítica ao financiamento de Israel
Abdul El-Sayed, o primeiro muçulmano eleito para o Senado dos EUA pelo estado de Michigan, também chamou atenção. Ele fez campanha criticando os gastos americanos com ajuda militar a Israel.
Em seu discurso, El-Sayed acusou o lobby sionista de gastar milhões para derrotá-lo. “Tentam rotular você como alguém cheio de ódio se você acredita que crianças palestinas deveriam poder crescer na terra de seus ancestrais sem serem assassinadas com o dinheiro dos nossos impostos”, declarou.
A suspensão da ajuda militar a Israel por parte de Trump no dia da eleição foi vista por alguns analistas como uma tentativa de reverter a tendência de votos em candidaturas críticas ao financiamento de Israel pelos EUA.
