Domingo, 25 de Outubro de 2026 às 18:15
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Mudanças Climáticas Disparam Doenças Infecciosas no Brasil: Dengue, Oropouche e Fungos Perigosos em Ascensão

Mudanças climáticas já causam aumento de doenças infecciosas no país, alertam especialistas

O Brasil vive um cenário preocupante com o aumento expressivo de doenças infecciosas, um reflexo direto das mudanças climáticas. A elevação das temperaturas e as alterações nos padrões de chuva têm criado um ambiente propício para a proliferação de vetores e microrganismos, impactando a saúde da população em diversas regiões do país.

A dengue, por exemplo, que antes tinha sua circulação restrita a áreas quentes, agora atinge recordes históricos em locais antes considerados imunes, como o Rio Grande do Sul. Este fenômeno é apenas um dos exemplos de como o clima alterado está redefinindo o mapa das doenças infecciosas no Brasil.

Além da dengue, outras enfermidades como a febre do Oropouche e novas ameaças fúngicas, antes restritas a nichos específicos, têm se espalhado, levantando um alerta geral sobre a necessidade de adaptação e prevenção. Conforme divulgado por estudos da Fiocruz e declarações de infectologistas, o clima é o principal motor dessa expansão.

Dengue: Expansão Irreversível e Recordes Históricos

A década de 1980 marcou o início dos registros de dengue no Brasil, mas foi em 2007 que o Rio Grande do Sul registrou seu primeiro caso não importado. Na época, o clima mais frio funcionava como uma barreira natural para o mosquito Aedes aegypti. No entanto, essa realidade mudou drasticamente. Em 2024, o mesmo estado registrou quase 210 mil infecções e 281 mortes, um número que surpreende ao ser comparado com a Bahia, estado mais quente e populoso, que teve cerca de 163 mil casos e 188 óbitos.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revela que o problema é nacional. Entre 2006 e 2024, o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos de dengue mais do que dobrou, passando de 110 para 292, o que representa 54% do país. As demais microrregiões apresentam incidência de média a baixa, com risco esporádico.

A principal explicação para essa expansão, segundo a pesquisa, é a **maior frequência de anomalias térmicas**. Esse conceito se refere a temperaturas muito diferentes das habituais em um local por um período. Os autores do estudo alertam que o processo de expansão da área de transmissão da dengue parece ser **irreversível**, tornando improvável o retorno a um cenário de transmissão zero.

O infectologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, corrobora essa visão, destacando que o espalhamento da dengue é uma das maiores provas de como as mudanças climáticas afetam doenças infecciosas. A doença tropical já alcança regiões mais frias do Brasil e países do Hemisfério Norte, como os Estados Unidos, França e Itália, que registram surtos históricos.

Granato explica que todas as fases da vida do mosquito são influenciadas pelo clima. Os ovos, com cascas resistentes, podem sobreviver por anos e eclodir com umidade e calor. Mosquitos adultos, em temperaturas elevadas, precisam bater as asas mais rapidamente, gastando mais energia e picando mais vezes para se alimentar, aumentando a transmissão.

Febre do Oropouche e Doenças Pós-Eventos Extremos

A dengue não é a única ameaça. A febre do Oropouche, que até 2023 circulava quase exclusivamente na Região Amazônica, causou mais de 12 mil infecções em 23 estados e no Distrito Federal no último ano. Embora a relação exata com o clima ainda esteja sob investigação, acredita-se que mudanças nos padrões de temperatura e chuva, aliadas à degradação ambiental, tenham contribuído para sua expansão.

O infectologista Celso Granato também alerta para surtos que ocorrem após eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, que se tornam mais frequentes. No Rio Grande do Sul, após as fortes chuvas, houve um aumento significativo nos casos de **leptospirose**, doença transmitida pela urina de ratos e espalhada durante inundações. A contaminação da água por esgoto e urina animal aumenta o risco de doenças gastrointestinais e hepatite A.

As secas, por sua vez, trazem um perigo menos conhecido. Incêndios florestais levam animais, especialmente pequenos mamíferos, a migrar para áreas urbanas, aumentando o risco de transmissão de doenças para humanos. O exemplo mais preocupante é o **hantavírus**, que causa uma síndrome cardiopulmonar grave. Desde 2016, o Brasil registrou 530 infecções e 212 mortes, com uma taxa de letalidade de 40%. O contágio ocorre quando roedores infectados entram em contato com as pessoas, especialmente após queimadas.

Fungos Adaptados e Resistentes: Uma Nova Fronteira de Risco

Outra ameaça emergente são as doenças fúngicas. A professora Sarah Gonçalves Tavares, da Universidade Federal do Espírito Santo, alerta que as mudanças climáticas estão forçando os fungos a se adaptarem a temperaturas mais elevadas, tornando alguns deles nocivos aos humanos. A temperatura corporal média de 37°C, que antes impedia o crescimento de 95% dos fungos ambientais, torna-se menos eficaz com o aquecimento global.

Essa adaptação, combinada com o aumento da radiação ultravioleta e outras alterações ecológicas, favorece o surgimento de fungos patogênicos. Um exemplo alarmante é a Candida auris, identificada pela primeira vez na década de 1990 em áreas alagadas e que agora apresenta alta resistência a antifúngicos e capacidade de sobrevivência em altas temperaturas. Pacientes imunodeprimidos são particularmente vulneráveis, e surtos em unidades hospitalares registram letalidade entre 40% e 60%.

No Brasil, o primeiro registro de Candida auris ocorreu em 2020, na Bahia, e desde então foram 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde. A taxa de letalidade quando o fungo atinge a corrente sanguínea chega a 82%. Mais recentemente, o Trichophyton indotineae, um fungo que causa problemas de pele, emergiu com resistência a antifúngicos, possivelmente devido à exposição ambiental a esses medicamentos, acelerando a seleção de cepas resistentes.

As mudanças climáticas também influenciam indiretamente a resistência fúngica. Eventos extremos podem afetar plantações, levando a um uso maior de fungicidas pelos agricultores e, consequentemente, à seleção de cepas mais resistentes. Fungos como o Aspergillus, que prosperam em ambientes quentes e úmidos, também têm expandido seu alcance geográfico devido às alterações nos padrões de temperatura e umidade.

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