Nova esperança para o controle da obesidade: Combinação de neurociência e nutrição diminui o desejo por alimentos em mulheres
Um estudo inovador conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) traz resultados promissores no combate ao desejo intenso por comida, conhecido como food craving, em mulheres com obesidade. A pesquisa, publicada na revista Physiology & Behavior, combinou técnicas de estimulação cerebral não invasiva com educação nutricional.
A obesidade, um grave problema de saúde pública global com maior prevalência entre mulheres, está ligada não apenas a questões metabólicas, mas também a alterações em áreas cerebrais cruciais para o controle cognitivo e a recompensa alimentar. Entender e intervir nessas regiões abre novas frentes de tratamento.
A investigação, apoiada pela Fapesp, utilizou a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS), uma técnica indolor que aplica uma corrente elétrica de baixa intensidade no couro cabeludo para modular a atividade neuronal. Essa abordagem neurocientífica foi combinada com sessões de aprendizado sobre nutrição, visando uma intervenção completa no comportamento alimentar. Conforme informações divulgadas pela FMRP-USP, a estimulação ativa mostrou reduzir o desejo por comida logo após a intervenção e a longo prazo.
Como a estimulação cerebral e a nutrição atuaram juntas
No estudo, 11 mulheres com obesidade grau 1 ou 2, com idades entre 20 e 40 anos, participaram de um protocolo de cinco dias. Elas receberam três sessões diárias de 20 minutos de estimulação cerebral ativa, focada no córtex pré-frontal dorsolateral, uma região associada à tomada de decisão e autorregulação. Um grupo controle realizou o mesmo procedimento com estimulação simulada.
Entre as sessões de estimulação, as participantes participaram de oficinas de educação nutricional. Os temas abordados incluíam nutrientes, saciedade, alimentação consciente, leitura de rótulos, hidratação, sono, fome física e emocional, e controle de porções. O objetivo era integrar a neuromodulação cerebral com o conhecimento prático sobre uma alimentação saudável e equilibrada.
Avaliações de peso, IMC, circunferências corporais, composição corporal, apetite, food craving e comportamento alimentar foram realizadas antes e após a intervenção, com acompanhamento até seis meses. Os resultados indicaram que a estimulação ativa reduziu o desejo por comida, tanto imediatamente quanto a longo prazo, conforme relatado por Marina Rodrigues Giuliani, primeira autora do estudo.
Resultados e o impacto no comportamento alimentar
A pesquisa observou que o protocolo de cinco dias não resultou em alterações significativas no peso corporal, IMC ou composição corporal das participantes. Essa estabilidade era esperada, pois o foco principal era a modulação neurocomportamental do desejo por comida, e não uma perda de peso imediata, já que o protocolo não envolveu restrição calórica.
No que diz respeito ao comportamento alimentar, tanto o grupo de estimulação ativa quanto o grupo placebo apresentaram melhorias no controle consciente da ingestão e redução do comer descontrolado. Os pesquisadores atribuem essas mudanças comportamentais ao aprendizado obtido nas oficinas de educação nutricional, que foram realizadas por todas as participantes.
Nenhum evento adverso grave foi registrado durante o estudo, o que reforça a segurança da tDCS como uma ferramenta terapêutica. A combinação de técnicas não invasivas mostra-se promissora para o manejo da obesidade.
Potencial da estimulação cerebral como terapia complementar
Apesar de ser um estudo-piloto, os resultados preliminares sugerem que a estimulação cerebral pode se tornar uma ferramenta complementar valiosa no tratamento da obesidade. A obesidade, como apontado por Vivian Marques Miguel Suen, professora da FMRP-USP e orientadora do estudo, é uma doença prevalente e de difícil tratamento, com alto risco de recidiva mesmo após intervenções médicas ou cirúrgicas.
A expectativa é que a neuromodulação possa auxiliar no controle do desejo por comida, potencializando os efeitos de outras terapias e auxiliando na manutenção de um estilo de vida mais saudável a longo prazo. A tDCS, por sua eficácia em modular o comportamento alimentar, representa um avanço significativo.
Os próximos passos da pesquisa incluem a investigação do uso da estimulação magnética, uma técnica que atua de forma mais focal e profunda no tecido cerebral. Essa nova abordagem será testada em pessoas com obesidade e transtorno de compulsão alimentar, buscando aprimorar ainda mais as estratégias de intervenção.
